OPINIÃO|PANDEMIA: Os profetas do vírus

OPINIÃO|PANDEMIA: Os profetas do vírus

29/03/2020 0 Por Carlos Joaquim

As pandemias têm as suas oportunidades de negócio. As entidades que montaram o Event 201 com um coronavírus inventado são as mesmas que se preparam para extrair avultados dividendos com o coronavírus verdadeiro.

Jeff Pachoud / AFP via Getty Images
No dia 18 de Outubro de 2019, dezena e meia de tecnocratas de luxo ao serviço das mais altas esferas do regime neoliberal globalista reuniram-se num hotel de Nova York para realizar «um exercício pandémico de alto nível» designado Event 201; consistiu na «simulação de um surto de um novo coronavírus» de âmbito mundial no qual, «à medida que os casos e mortes se avolumam, as consequências tornam-se cada vez mais graves» devido «ao crescimento exponencial semana a semana». Ninguém ouvira falar ainda de qualquer caso de infecção: estávamos a 20 dias de o jornal britânico Guardian noticiar o aparecimento na China de uma nova doença respiratória provocada – soube-se só algumas semanas depois – por um novo coronavírus. Os dons proféticos dos expoentes do neoliberalismo são, sem dúvida, admiráveis.
Segundo os meios oficiais de divulgação do Event 201, partindo da constatação de que existem cerca de 200 situações de índole viral por ano bastaram apenas três horas e meia aos especialistas «para concordarem que é apenas uma questão de tempo até que uma dessas epidemias se torne global – uma pandemia com consequências potencialmente catastróficas». Na situação por eles idealizada à volta de uma mesa apuraram que a crise se prolongaria por 18 meses e provocaria «65 milhões de mortos» porque «embora no início alguns países possam conter o vírus ele continua a espalhar-se e a ser reintroduzido, pelo que eventualmente nenhum consegue manter o controlo».
Montou-se o exercício, explicam os responsáveis, para avaliar «áreas em que as parcerias público-privadas serão necessárias durante a resposta a uma pandemia severa para diminuir as consequências económicas e sociais em grande escala». Por exemplo, como pode ler-se nas sete medidas recomendadas ao cabo da simulação, «uma pandemia grave interferiria muito na saúde da força de trabalho, nas operações comerciais e no movimento de bens e serviços». Em pessoas raramente se fala, ao longo das explicações relacionadas com o exercício, mas também não foi disso que trataram os 15 participantes, «associados a negócios à escala global, governos e saúde pública». Como disse um deles, Ryan Morhard, entrevistado pela agência financeira Bloomberg a propósito da montagem da simulação, «foi mais de um ano de investigação, um investimento de centenas de milhares de dólares, mas os ensinamentos extraídos são incalculáveis».

O que terá acontecido em Fort Detrick?

Morhard representou, no exercício, o Fórum Económico Mundial (anualmente em Davos, Suíça), cenáculo da banca privada transnacional e do capitalismo selvagem, um dos organizadores do Event 201 juntamente com a Fundação John Hopkins e a Fundação Bill e Melinda Gates, entidade que se dedica simultaneamente à «campanha mundial de vacinação», à travagem do crescimento da população mundial e à promoção dos interesses dos grandes impérios farmacêuticos mundiais.
À volta da mesa do hotel de Nova York sentaram-se também representantes oficiais e oficiosos da ONU, do Banco Mundial, do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), da Organização Mundial de Saúde (OMS) e de grandes empresas, designadamente da área de produção e distribuição de instrumentos clínicos e medicamentos e do marketing empresarial, além da banca. Presença especial foi a de Avril Haynes, directora-adjunta da CIA durante a administração Obama e também ex-consultora jurídica da agência. Haynes parece especialmente dotada para as profecias no âmbito da epidemiologia, pois já em 2018, num discurso proferido na Camden Conference, anteviu «uma doença infecciosa provocada por um patógeno facilmente transmissível através das vias respiratórias» e que «em seis meses afectará todos os cantos do mundo».
18 de Outubro, o dia do Event 201, foi também a data de início dos Jogos Mundiais Militares em Wuhan, na China. O que terá este facto de especial, além da coincidência?
Veremos que, no mínimo, a coincidência dá que pensar. Wuhan é a cidade do centro da China onde deflagrou, em Dezembro de 2019, o surto de um novo coronavírus, entretanto designado SARS 2019-nCov, causador da doença designada por COVID-19. O ponto de emanação terá sido, segundo fica a saber-se através da comunicação social corporativa – e sem objecções levantadas pelos novos donos da verdade, os fact-checkers – o mercado de frutos do mar da cidade. No entanto, entre os primeiros 41 doentes tratados com o novo vírus nos hospitais de Wuhan, 13 não tiveram qualquer relação com o mercado de peixe e mariscos. O surto, portanto, não teve origem num só lugar.
Além disso, um porta-voz oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Zhao Lijian, fez uma declaração que implica outros caminhos na procura do «paciente zero» da pandemia. «Pode ter sido o Exército dos Estados Unidos que trouxe o surto para Wuhan», disse perante a teimosia provocatória do presidente norte-americano em qualificar o COVID-19 como um «vírus chinês». «Sejam transparentes, tornem os vossos dados públicos, devem-nos explicações», desafiou Zhao Lijian.
A alusão ao Exército dos Estados Unidos e o pedido «de explicações» remetem-nos precisamente para os Jogos Mundiais Militares em Wuhan, nos quais participou uma delegação norte-americana de aproximadamente 300 pessoas. E precisamente durante esses jogos, segundo Larry Romanoff, professor da Universidade de Xangai, cinco participantes – cuja nacionalidade não foi revelada pelos organizadores – foram hospitalizados com uma «infecção desconhecida». Isto aconteceu entre 18 e 29 de Outubro, cerca de oito semanas antes de ser revelada a existência do surto de novo coronavírus em Wuhan.
A militarização da narrativa aconselha-nos a recuar um pouco mais no tempo, para Julho e Agosto de 2019, altura em que foi encerrado subitamente o principal laboratório de guerra biológica dos Estados Unidos em Fort Detrick, Maryland. A decisão foi tomada pelo CDC invocando falhas em «descontaminar águas residuais» e deficiências na formação e certificação de pessoal dos laboratórios de biocontenção. Contudo, esclarece o insuspeito New York Times, o CDC não teve a possibilidade de fornecer dados mais específicos «por razões de segurança nacional». Não é top secret, porém, que entre 2005 e 2012 foram elencados mais de mil casos de roubos ou fuga de organismos patogénicos de laboratórios biológicos norte-americanos – mais de dois por dia.
Estamos perante elementos circunstanciais e factuais, nada mais do que isso. Mas por que será que a comunicação social dominante os esconde do grande público e insiste em amarrar a origem do COVID-19 à cidade de Wuhan?
Como disse o clínico Zhong Nanshan, conselheiro médico chefe da China no combate ao coronavírus: «Na verdade, a epidemia do novo coronavírus teve origem em Wuhan (…). Mas isso não quer dizer que a sua fonte esteja em Wuhan». Ou, parafraseando outro porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Geng Shuang, trata-se «de um assunto científico, que requer opiniões científicas e profissionais». Portanto, no mínimo, a situação merece o benefício da dúvida.
Há muitos obstáculos a remover para se tirar a limpo estas histórias virais.