Novos cenários na era do coronavírus

Novos cenários na era do coronavírus

22/03/2020 0 Por Carlos Joaquim
Roberto de Mattei –
O tema da minha palestra é Os novos cenários na Itália e na Europa com e após o coronavírus.
Não falarei sobre esse tópico do ponto de vista médico ou científico, pois não tenho competência nesses campos.
Em vez disso, tratarei do assunto sob outros três pontos de vista: do estudioso das ciências políticas e sociais; do historiador; e do ponto de vista do filósofo da História.
O estudo das ciências sociais
As ciências políticas e sociais são aquelas que estudam o comportamento do homem em seu contexto social, político e geopolítico. Desse ponto de vista, não me pergunto sobre as origens do coronavírus e sua natureza, mas sobre as consequências sociais que ele está tendo e terá.
Uma epidemia é a disseminação em escala nacional ou mundial (neste caso, é chamada de pandemia) de uma doença infecciosa que afeta um grande número de indivíduos de uma determinada população em um período muito curto de tempo.
O coronavírus, renomeado Covid-19 pela OMS, é uma doença infecciosa que começou a se espalhar a partir da China. A Itália é aparentemente o país ocidental mais afetado.
Por que a Itália está em quarentena hoje? Porque, como os analistas entenderam desde o primeiro momento, o problema do coronavírus não é tanto a taxa de letalidade da doença, mas a rapidez da infecção na população. Todos concordam que a letalidade da doença em si não é muito alta. Um paciente pode se recuperar se for assistido por pessoal especializado em unidades de saúde bem equipadas. Mas se, devido à rapidez da infecção, que pode afetar milhões de pessoas simultaneamente, o número de pacientes for galopante, faltarão instalações e funcionários: nesse caso os pacientes morrem porque são privados dos cuidados necessários. Para tratar casos graves, são necessários cuidados intensivos para ventilar os pulmões. Se esse suporte estiver ausente, os pacientes morrem. Se o número de pessoas infectadas aumentar os hospitais não poderão mais oferecer tratamento intensivo a todos e um número crescente de pacientes sucumbirá.
As projeções epidemiológicas são inexoráveis​​e justificam as precauções tomadas. “Se ficar descontrolado, o coronavírus pode afetar toda a população italiana; mas suponhamos que no final apenas 30% sejam infectados, cerca de 20 milhões. Se desses — contando por baixo — uns 10% entrar em crise, isso significa que, sem cuidados intensivos, eles estarão destinados a sucumbir. Seriam dois milhões de mortes diretas, além de todas as mortes indiretas resultantes do colapso do sistema de saúde e da ordem social e econômica resultante”[1].
O colapso do sistema de saúde também tem outras consequências. O primeiro é o colapso do sistema de produção do país.
As crises econômicas geralmente surgem da falta de demanda ou de oferta. Mas se aqueles que desejam consumir devem permanecer em casa e as lojas estão fechadas e aqueles que poderiam oferecer não podem levar seus produtos aos clientes porque as operações de logística, o transporte de mercadorias e os pontos de venda estão em crise, as cadeias de suprimentos–as supply chains colapsam. Os bancos centrais não conseguem salvar a situação: “A crise pós-coronavírus não tem solução monetária“, escreve Maurizio Ricci em La Repubblica, em 28 de fevereiro. Stefano Feltri, por sua vez, observa: “Receitas tipicamente keynesianas — criação de empregos e demanda artificial com dinheiro público — não são viáveis ​​quando os trabalhadores não saem de casa, os caminhões não circulam, os estádios estão fechados e as pessoas não reservam viagens de férias ou de negócios porque em casa há doentes ou temem infecções. Além de evitar crises de liquidez para as empresas, suspendendo os pagamentos de impostos e de juros aos bancos, a política é impotente. Um decreto do governo não é suficiente para reorganizar a cadeia de suprimentos”[2].
A expressão “tempestade perfeita” foi criada há vários anos pelo economista Nouriel Roubini para indicar uma mistura de condições financeiras que poderiam levar a um colapso do mercado. “Haverá uma recessão global devido ao coronavírus”, diz Nouriel Roubini, acrescentando: “A crise explodirá e resultará em um desastre”[3]. As previsões de Roubini foram confirmadas pela queda nos preços do petróleo após o fracasso de um acordo na OPEP, com a Arábia Saudita desafiando a Rússia e decidindo aumentar a produção e baixar os preços. Provavelmente serão ratificadas pelo desdobramento de eventos.
O ponto fraco da globalização é a “interconexão”, a palavra talismã do nosso tempo, da economia à religião. A Querida Amazônia do Papa Francisco é um hino à interconexão. Mas o sistema global é frágil precisamente porque está muito interconectado. E o sistema de distribuição de produtos é uma das cadeias dessa interconexão econômica.
Não se trata de mercados, mas da economia real. Não apenas as finanças, mas também a indústria, o comércio e a agricultura — ou seja, os pilares da economia de um país — podem entrar em colapso se o sistema de produção e distribuição estiver em crise.
Mas há outro ponto que começa a ser vislumbrado: não é apenas o colapso do sistema de saúde, não é só a possibilidade de uma rachadura econômica, mas também pode haver um colapso do Estado e da autoridade pública; em uma palavra, a anarquia social. As prisões em revolta na Itália indicam uma direção,
As epidemias têm consequências psicológicas e sociais pelo pânico que podem causar. A Psicologia Social nasceu entre o final do século XIX e o início do século XX. Um de seus primeiros expoentes é Gustave Le Bon (1841-1931), autor de um famoso livro intitulado Psicologia das Massas (1895).
Analisando o comportamento coletivo, Le Bon explica como no meio da multidão o indivíduo passa por uma mudança psicológica pela qual sentimentos e paixões são transmitidos de um indivíduo para outro “por contágio”, como nas doenças infecciosas. A moderna teoria do contágio social, inspirada em Le Bon, explica como, protegido no anonimato da massa, até o indivíduo mais pacífico pode se tornar agressivo, agindo por imitação ou sugestão. O pânico é um daqueles sentimentos transmitidos por contágio social, como aconteceu durante a Revolução Francesa no período chamado de “Grande Medo”[4].
Se à crise econômica se soma a crise da saúde, uma onda descontrolada de pânico pode desencadear impulsos violentos na multidão. O Estado é substituído por tribos, gangues, especialmente nos subúrbios de grandes centros urbanos. A anarquia tem seus agentes, e a guerra social, que foi teorizada pelo Fórum de São Paulo (uma confederação de organizações ultraesquerdistas latino-americanas), já é praticada na Bolívia e no Chile, Venezuela e Equador, e pode em breve expandir-se para a Europa.
Esse processo revolucionário certamente corresponde ao projeto dos lobbies globalistas, os “mestres do caos”, como os defineo professor Renato Cristin[5]. Mas, se isso é verdade, também é verdade que quem sai derrotado por essa crise é precisamente a utopia da globalização, apresentada como o principal caminho para levar à unificação da humanidade. De fato, a globalização destrói o espaço e pulveriza as distâncias: hoje, pelo contrário, a regra para escapar da epidemia é a distância social, o isolamento do indivíduo. A quarentena se opõe diametralmente à “Sociedade Aberta” defendida por George Soros. A concepção do homem como um relacionamento, típica de certo personalismo filosófico, entra em ocaso.