Não pactuar com a Revolução — o exemplo de Santo Afonso de Ligório
No prólogo de sua completíssima biografia de Santo Afonso de Ligório,[i] o erudito historiador e hagiógrafo francês Padre Berthe [quadro abaixo] debuxa em rápidos traços a situação religiosa na França no início do século XX.
Escrevendo em 1906, referindo-se aos nefastos efeitos da diabólica Revolução Francesa: “Já faz 100 anos que a Revolução ataca a Igreja de Deus com um furor sempre crescente. […] Atualmente ela derruba a golpes de machado todas as instituições cristãs: laiciza a família, a escola, o hospital, a caserna, o cemitério e até a rua, proibida doravante ao Deus feito homem”.
Pe. Augustin Berthe
Entretanto, após investir contra o altar e o trono, a Revolução de 1789 fez um recuo tático: com a Concordata de Napoleão e particularmente com a Restauração dos Bourbons em 1814, ela permitiu que a situação religiosa na França de certo modo se recompusesse e a Igreja recomeçasse a inspirar a vida pública dos franceses. Contudo, como os revolucionários não estavam dormindo, mas tinham apenas mudado de tática, ganharam amplamente as eleições em 1879 e começaram a trabalhar para acabar coma influência da Igreja sobre o Estado, ainda relativamente forte.
Assim, nesse mesmo ano suprimiram a obrigação do repouso dominical, e no ano seguinte interditaram as congregações religiosas e expulsaram a Companhia de Jesus. Em 1881 secularizaram os cemitérios, até então ligados à Igreja, e em 1882 laicizaram a escola primária, tirando-a do âmbito religioso.
Mas isso ainda não satisfazia a sanha dos revolucionários: em 1884 eles suprimiram as orações públicas na Câmara dos Deputados e restabeleceram o divórcio. No ano seguinte fecharam as Faculdades de Teologia geridas pelo Estado e laicizaram os hospitais, que até então sob a tutela da Igreja. Em 1886 laicizaram o pessoal de ensino nos estabelecimentos laicos e em 1887 retiraram os símbolos religiosos dos tribunais. Em 1889 decretaram a convocação dos seminaristas e clérigos para o serviço militar, e finalmente, em 1904, romperam as relações diplomáticas com a Santa Sé e decretaram a separação da Igreja e do Estado[ii].
Enquanto os revolucionários demoliam assim toda a influência da Igreja na esfera temporal, o que faziam os católicos, majoritários no país? Como foi possível — pergunta o Padre Berthe — “reduzir os católicos a esse estado de escravidão” na outrora Filha Primogênita da Igreja, sem que houvesse uma reação proporcional?
Para o ilustre eclesiástico, isso só se deu porque os católicos em geral se esqueceram de que a Igreja é militante e, portanto, que devem lutar contra o demônio, o mundo e a carne. Mas, sobretudo, porque “a maioria não quis compreender que o cataclismo de 1789 não foi uma revolução comum, mas a Revolução dos povos contra Deus e contra seu Cristo, a apostasia das nações”.
Eis como o Pe. Berthe descreve a consequência dessa apostasia dos católicos: “Cegos voluntários, em presença das ruínas que se acumulavam, continuavam a repetir ‘que o mal não é tão grande, que todos os séculos se assemelham, e que os homens sempre foram os mesmos’. Eles dormirão em seu otimismo até o dia em que, com a religião e a moral destruídas, a sociedade desmoronará sob os golpes do socialismo”.
Mas é preciso citar os “colaboracionistas” — aqueles católicos “esclarecidos e progressistas” como os há hoje —, “que julgavam que se devia poupar [a Revolução], aceitando seus princípios, louvando como ela a liberdade, o progresso, a civilização moderna, aconselhando mesmo à Igreja de se reconciliar com o direito novo, de sacrificar suas imunidades, e de se mostrar menos intransigente em matéria de moral, de ascetismo, de exegese, de história, de tradições”.
É o que sucede também em nossos dias quando, para adaptar a Igreja ao “espírito do mundo”, se leva tudo de roldão, provocando o desfazimento da vida de família com a avalanche homossexual, a teoria de gênero, o aborto etc., tendo como consequência, sobretudo, a terrível crise que devasta a Santa Igreja.
Continuando com o Padre Berthe, por causa dessa colaboração ou pela falta do espírito de luta, “se nós perdemos bom número de nossas posições, é porque não as quisemos defender muito vigorosamente. […] Em tempo de guerra, todo homem é soldado; em tempo de perseguição, todo cristão deve dizer como os Macabeus: ‘Antes a morte à apostasia!’”.