Semana que começa ainda com a ressaca dos resultados Brexit, que ainda vai dar pano para mangas. Mais referendos a esta Europa dominada pelo neoliberalismo fascista estão anunciados ou pelo menos anunciada a vontade de os fazer. É caso para dizer: “o último a sair que feche a porta”.2. Sobre os resultados do referendo na Grã Bretanha, apenas uma nota, face ao verdadeiro golpe em curso no Partido Trabalhista para desalojar Jeremy Corbyn, eleito há sete meses pelas bases com o triplo dos votos dos seus oponentes. Corbyn teve de enfrentar desde início um verdadeiro boicote de um importante grupo de deputados identificados com a ala direita do partido. Não apenas eles, mas também eles, aproveitam agora para tentar dar a estocada final num homem claramente situado à esquerda por não ter conseguido fazer a quadratura do círculo. Isto é, Corbyn, dizem, não teria mostrado grande empenho no voto pela permanência. Como se tivesse sido o dirigente do Partido Trabalhista a convocar ou desejar o referendo. Por isso, como dizia ontem um importante editorial do Guardian, “é preverso culpá-lo pela derrota de David Cameron“. Ora cá está uma questão interessante para ser debatida nos próximos tempos: a União Europeia não é uma entidade neutra. Aplica políticas concretas, que exprimem a visão do mundo do dominante Partido Popular Europeu, executadas com a conivência de vários partidos/governos social-democratas. A dúvida, que se materializa na atitude de Corbyn, passa em perceber como é possível, hoje, na Europa, ter uma atitude crítica em relação à UE a partir de um ponto de vista de esquerda sem que, para o discurso dominante nos media, isso não signifique uma de duas coisas, ou as duas em simultâneo: ser colocado no mesmo saco de xenófobos ou neofascistas, ou ser acusado de pretender a implosão da Comunidade com uma visão radical, extremista, por assim a novilíngua ter passado a nomear tudo quanto esteja para lá dos tradicionais partidos da social-democracia, representados em Portugal pelo PS.
O Bloco de Esquerda realizou em Lisboa a sua X Convenção, durante a qual Catarina Martins foi escolhida como líder única do BE. A sua moção de estratégia conseguiu 83% dos votos. Como noticia Paulo Paixão, Catarina defende que caso a EU opte por sancionar Portugal ou exigir mais impostos: “Portugal só pode dizer que está disposto a pôr na ordem do dia um referendo para tomar posição sobre a chantagem”. Helena Pereira explica o que o BE quer em seis notas.
O PCP reuniu o seu Comité Central este fim-de-semana. Uma das conclusões apresentadas por Jerónimo de Sousa é passa pela “urgência e a necessidade de Portugal se preparar e estar preparado para se libertar da submissão ao Euro e garantir os direitos, o emprego, a produção, a soberania e a independência nacional”.
O Governo, noticia o Público, pretende manter o controlo periódico dos desempregados a receber subsídio, mas preparaalterações à forma como é feito o controlo e às sanções que lhe estão associadas. Uma das mudanças poderá passar por intercalar as apresentações quinzenais nas juntas de freguesia com deslocações aos centros de emprego.
A fachada do Hospirtal de Santo António, no Porto, vai ser limpa pela primeira vez em 250 anos. A Santa Casa da Misericórdia do Porto, proprietário do imóvel com 700 anos arrendado ao Estado, deverá lançar a obra no próximo mês de agosto.
O Portal Bibliotrónica disponibiliza gratuitamente on line mais de 3 mil livros em português. O projeto nasceu em 2007 no Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas autonomizou-se o ano passado. A generalidade dos livros está disponível em formatos que permitem a impressão ou que podem ser descarregados para leituras em diferentes dispositivos eletrónicos.
Lá fora
O Europeu de futebol continua a ocupar grande parte do espaço informativo. Depois de entediante vitória de Portugal sobre a Croácia escassos minutos antes de soar o “gong” que determinaria a marcação de grandes penalidades, também a França, a Alemanha, o País de Gales e a Bélgica conseguiram passaporte para os quartos-de-final. Atenção, hoje às 17 horas, a um jogo que poderá ser eletrizante: a Itália defronta a Espanha e já há quem fale de uma final antecipada.
Tentemos sair de uma visão exclusivamente eurocêntrica(Grexit, eleições em Espanha, Europeu de futebol) para dar outra notícia futebolística, mas relacionada com a Copa América, disputada nos EUA. O Chile venceu a prova pela segunda vez consecutiva ao derrotar, de novo a Argentina na marcação de grandes penalidades. As equipas terminaram o prolongamento empatadas a zero. Messi falhou uma das grandes penalidades e já anunciou a intenção de abandonar a seleção argentina, ao serviço da qual não conquistou nenhum grande troféu internacional.
No processo de digitalização dos fundos da antiga Biblioteca do Casino Gaditano, em Cádiz, foi encontrado um arquivo no qual estão 10 volumes da revista literária “Bentley’s Miscellany”, fundada por Charles Dickens e praticamente desaparecida em Inglaterra.
Catherine Deneuve será, com a beleza dos seus 72 anos, a primeira atriz a receber o prémio Lumière, atribuído a cada mês de outubro pelo festival com o mesmo nome, considerado o mais importante encontro de cinema clássico existente em todo o mundo. O festival realiza-se em Lyon, a cidade onde os irmãos Lumière inventaram o cinema.
FRASES
“Reclamo o direito a governar. Amanhã vamos falar com todos”. Mariano Rajoy, presidente do PP
“Não estou satisfeito. Nós, socialistas, queríamos ganhar estas eleições”, Pedro Sánchez, líder do PSOE
“Preocupa-nos a perda de apoios do bloco progressista”,Pablo Iglésias, dirigente da coligação Unidos Podemos
“Estamos dispostos a negociar, com uma condição: não podemos pôr os lugares no Governo à frente”¸ Alberto Rivera, dirigente do Ciudadanos
“Se Bruxelas impuser sanções, isso será uma declaração de guerra a Portugal. (…). Portugal só pode dizer que está disposto a pôr na ordem do dia um referendo para tomar posição sobre a chantagem”. Catarina Martins, no encerramento da X Convenção do Bloco de Esquerda
“Os serviços públicos (…) sofreram pressões que se repercutiram nos mais pobres. É o que me disseram á porta de suas casas a idosa branca de classe trabalhadora, a cabeleireira britânica de origem asiática, o sírio responsável por uma pizzaria. É um erro dizer que estas pessoas são racistas. As suas inquietações são gerais e genuínas, e não devem ser subestimadas”. Timothy Garton Ash, colunista, catedrático de estudos europeus na Universidade de Oxford
“Entre os meus censores havia colegas meus da Universidade da Cidade do Cabo. Por outras palavras, estava a relacionar-me no dia a dia com pessoas que em segredo – pelo menos para mim – estavam a julgar se me era permitido ser publicado e lido no meu próprio país”. J. M. Coetzee, escritor sul-africano, prémio Nobel da literatura
O QUE ANDO A LER
Iniciei a leitura de um livro seguramente fora de moda, a avaliar pelo título, embora a primeira edição seja apenas de 2011, com uma nova edição lançada tão só há dois meses, na qual é incluído um novo capítulo. Trata-se de “Chavs: The demonization of the working class”, de Owen Jones, colunista do jornal inglês The Guardian e da revista New Statement e promete. Promete muito. Na apresentação da tradução em castelhano publicada em Espanha, diz-se no suplemento literário do El País, Babelia, que “Chavs mostra como o ódio às classes populares é um elemento essencial da ideologia dominante, cujas origens remontam às transformações económicas e políticas impulsionadas pela contra reforma neoliberal dos anos setenta”. Acrescenta o crítico que se trata “de um ensaio teoricamente robusto e de leitura acessível”. Por sua vez, Dwight Garner, dizia no New York Times que o livro coloca “a seguinte brutal questão: ‘Como é que o ódio à classe trabalhadora se tornou tão socialmente aceitável’?”. Aqui está um interessantíssimo tema para reflexão, em particular no contexto do resultado e das análises que têm sido feitas à distribuição e sentido da votação no referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia.