TRANSCENDÊNCIA E SACRALIDADE

TRANSCENDÊNCIA E SACRALIDADE

04/10/2020 0 Por Carlos Joaquim

Como anunciamos no post de ontem, segue a transcrição do segundo capítulo da excelente obra “Plinio Corrêa de Oliveira — Profeta do Reino de Maria”, de autoria do Prof. Roberto de Mattei.

Roberto de Mattei

Um traço fundamental do pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira foi seu amor ao concreto, à individualidade, ao variado. Ele fez seu o princípio fundamental do tomismo, segundo o qual o objeto próprio da inteligência humana não é o ser indefinido, mas a quidditas rei sensibilis — as essências específicas do real corpóreo. É por meio da experiência direta das essências específicas que o homem pode remontar ao conhecimento do universo e à própria formulação dos primeiros princípios. Conhecemos antes de tudo somente as essências, e com elas não a totalidade, mas a desigualdade do real. Ou, mais precisamente, conhecemos a unidade através da multiplicidade.

Ao princípio de identidade se juntam, na especulação filosófica, o princípio de diferença ou diversidade e o princípio de distinção[i], identidade e unidade determinadas pela substância, pela essência ou pela natureza. Ao idêntico se opõe o diverso ou diferente, como ao símile o dessemelhante, e ao igual o desigual. A distinção e a multiplicidade das coisas — explica São Tomás — vêm de Deus, que “trouxe as coisas ao ser para comunicar a sua bondade às criaturas que O representam. E como esta não pode ser representada suficientemente por uma só criatura, produziu muitas e diversas”.[ii]

Para serem radicalmente diversos, os entes devem ser constituídos ontologicamente diferentes. Um ser existente, qualquer que seja, deve existir de um determinado modo. De fato, ou existe um só ser que seja ao mesmo tempo e contraditoriamente todos os seres, ou existem muitos entes, cada qual constituído do próprio ato de ser. Enquanto ente, um ser nunca é o outro; se o fosse, os dois constituiriam um único ser.[iii]

São Tomás afirma que Deus produz muitas e variadas criaturas, para que aquilo que falta a uma para bem representar a bondade divina seja suprido pela outra

São Tomás de Aquino apresenta como fato constatado que o universo não dá a impressão de um caos, mas de ordem.[iv] A quæstio 47 da parte I da Summa Theologiæ é dedicada à pluralidade e à diversidade das coisas em geral. Considerada do ponto de vista de Deus, a ordem criada é uma série ontológica “descendente” em que as diversas espécies, cada qual ao seu modo e no próprio nível, exprimem a glória de Deus.[v] São Tomás afirma que Deus produz muitas e variadas criaturas, para que aquilo que falta a uma para bem representar a bondade divina seja suprido pela outra; de fato, a bondade que existe em Deus no estado de simplicidade e de unidade encontra-se de modo complexo e fragmentário nas criaturas. “Por onde todo o universo participa com maior perfeição da divina bondade, e a representa melhor do que qualquer outra criatura”.[vi] “Uma criatura única — observa o Prof. Plinio — não seria impossível enquanto tal, do ponto de vista da potentia Dei absoluta.[vii] Mas ela seria abortiva, e enquanto tal impossível de potentia Dei ordinata”.[viii]

Para Plinio, a ordem do universo não é uma teoria abstrata, desprovida de consequências para a mente humana. Ao contrário, é exatamente da visão dessa ordem que o homem recolhe a sua ordem e o seu equilíbrio interior.

“A visão da ordem do universo implica uma espécie de ordenação, por reciprocidade, de toda a mente daquele que a considera. […] De maneira que quem vive habituado à consideração da ordem do universo adquire uma ordem dentro da cabeça que é de fato, tanto quanto eu saiba, o único meio de ordenar a cabeça. Naturalmente colocando no centro dessa ordenação, como elemento ápice da ordem do universo, a religião católica, suas doutrinas, enfim toda a Igreja Católica. Não é uma atitude naturalista, mas comporta também uma aplicação de toda a ordem natural, temporal, etc.”.[ix]

“Paraíso” (detalhe da cúpula) – Giusto de’ Menabuoi, séc. XIV. Batistério da Catedral de Pádua (Itália).

Os graus de perfeição

É preciso partir de um ponto que o Concílio Vaticano I definiu como artigo da nossa fé: a possibilidade de a razão humana atingir a certeza da existência de Deus e de crer n’Ele seguindo um itinerário que ascende até Deus mediante as coisas criadas.[x] Pois, segundo as palavras de São Paulo, “as perfeições invisíveis de Deus, desde a Criação do mundo, são interpretadas visivelmente pela inteligência dos homens por meio dos seres que Ele mesmo fez” (Rm 1, 20).

Cada uma das cinco vias de São Tomás para demonstrar a existência de Deus nos leva ao conhecimento de um atributo divino partindo do mundo criado.[xi]

Dentre essas cinco “provas” clássicas da existência de Deus, Plinio Corrêa de Oliveira prezava de modo especial a “quarta via”, aquela em que o aspecto platônico é mais saliente, e que consiste em subir a Deus pela escada de perfeição das coisas criadas.[xii] Mas ele a compreende como um método de formação e um processo psicológico que modela a alma humana mais do que um silogismo filosófico abstrato. Ele vê especialmente na quarta via não só uma via para conhecer Deus, mas também e sobretudo para amá-Lo.[xiii] Ela apresenta Deus não apenas como causa eficiente e causa final, mas também como causa exemplar da Criação, e contempla a ordem do criado como um universo de harmonia e beleza, reflexo da Beleza divina incriada.

São Tomás diz que “Deus fez ótimo todo o universo, ao modo da criatura; não fez ótimas, porém, cada uma das criaturas, mas uma melhor que a outra.[xiv] Por onde, nos seres naturais, vemos que as espécies são gradativamente ordenadas; […] e em cada uma dessas classes encontram-se espécies mais perfeitas do que as outras. Portanto, sendo a divina Sabedoria a causa da distinção das coisas para a perfeição do universo, assim o será da desigualdade”.[xv] A quarta via conduz a Deus, ser perfeitíssimo, através das perfeições de que todo o criado participa, em medida e grau diversos.

O Prof. Plinio desenvolve a noção de “graus”, segundo a qual as criaturas são como degraus de uma escada por meio dos quais a mente humana pode elevar-se a Deus. Todas as coisas existem no pensamento de Deus antes mesmo de serem criadas. Deus as concebe ab æterno, desejando que elas sejam, em graus diferentes, um reflexo das suas perfeições.

“O intelecto humano foi criado para ascender gradualmente — como os degraus de uma escada — até o sumo Princípio que é Deus”.[xvi] “O grau é aquela desigualdade que existe do ato para a potência, da causa para o efeito, da substância para o acidente. A esta desigualdade chamamos grau. E sempre que entre duas criaturas se estabelece uma relação desta natureza, uma é superior à outra enquanto tal. O conteúdo mais interno da noção de grau é este, e no fundo o conteúdo da noção de número tem que se prender a isto.

“A esse respeito, é preciso fazer uma consideração. Como a matéria é indispensável à forma para a constituição do ser, se tomarmos as noções de matéria e forma, tudo aquilo que é indispensável a algum outro é — enquanto indispensável — superior a este outro. Por mais inferior que a matéria seja em relação à forma, ela é — aliunde, e num sentido secundário — mais nobre do que a forma. E a relação de desigualdade nunca é uma relação de desigualdade total. Mas é uma desigualdade que, simpliciter,[xvii] é desigualdade numa linha, mas secundum quid é desigualdade noutra linha.

“Neste sentido, sob alguns aspectos o povo é mais do que o rei. E a hierarquia é uma relação de desiguais, mas não uma relação de desiguais em tudo; é uma relação de desiguais simpliciter. Ou seja, em absoluto o rei é mais do que o povo, que secundum quid é de desiguais no sentido inverso (de certo ponto de vista, o povo é mais do que o rei). E de algum modo o grau é um imbricamento dessas duas desigualdades, não em sens unique, mas em dois sentidos diversos, com mão e contramão”.[xviii]

Emprega-se a analogia para estabelecer um paralelismo entre as realidades essencialmente diferentes, mas que têm alguma coisa em comum; é o caso do cordeiro com Nosso Senhor Jesus Cristo.

Analogia e sacralidade

O reconhecimento da existência das desigualdades no criado, e o amor a elas enquanto criadas por Deus, é o fundamento daquilo que o Prof. Plinio define como “sacralidade”. Ao senso do ser, que faz compreender com evidência imediata a existência da realidade, corresponde o senso do sacral, que mostra como esta realidade enquanto contingente é criada, enquanto criada é desigual, e na sua desigualdade é harmonicamente ordenada a Deus, princípio de toda realidade. A sacralidade é uma consequência da correlação de analogia que existe no universo criado.

Emprega-se a analogia para estabelecer um paralelismo entre as realidades essencialmente diferentes, mas que têm alguma coisa em comum. Diferentemente da univocidade (um mesmo termo é aplicado a muitos sujeitos em sentido idêntico) e da equivocidade (um mesmo termo é aplicado em vários sentidos totalmente diferentes), a analogia consiste em atribuir um mesmo termo a diferentes sujeitos, em sentido parcialmente igual e parcialmente diferente. Assim, o termo “sadio” refere-se própria e principalmente ao corpo, mas por analogia se aplica igualmente a um alimento, a um clima ou a um rosto que exprimam a saúde do corpo. Da mesma forma se diz que a verdade é para a inteligência aquilo que a luz do sol é para os olhos do corpo.[xix]

No plano metafísico, a analogia está fundamentada na participação de vários entes numa mesma perfeição. De fato, segundo São Tomás, “diz-se que um ser é uno não somente segundo o número, a espécie ou o gênero, mas também por analogia ou por uma certa proporção; e é desse modo que existe unidade ou conveniência entre a criatura e Deus”.[xx]

Plinio acentua a desigualdade enquanto um dos elementos da analogia: “O estado de sacralidade é um estado de analogia, que da parte do ser mais baixo se exprime assim: ‘eu amo aquele ser pelo que tem de comum comigo’. Quanto maior a analogia, maior o amor. O outro lado é: ‘eu amo aquele ser pelo que tem de diferente de mim, pelo que tem de superior a mim’. Quanto maior a superioridade, maior a veneração”.[xxi]

“O conceito de analogia traz sempre consigo um conceito de desigualdade, porque as coisas diferentes são sempre necessariamente desiguais. Não pode haver duas coisas num mesmo plano quando há diferença. Em última análise, um é mais belo do que o outro, é melhor que o outro, ou alguma diferença assim”.[xxii]

Essa analogia leva umas coisas, por assim dizer, a se reverterem nas outras, a refletirem as outras, num mundo de transparências extraordinárias que seria como uma sucessão de cristais através dos quais passa o sol. A alma que vê a analogia das coisas minerais com as plantas, das plantas com os animais, dos animais com os homens, dos homens com os anjos, Nossa Senhora bem no alto da criação, depois Nosso Senhor Jesus Cristo; em seguida faz analogia em sentido oposto, rumo ao demônio — essa alma faria, a meu ver, uma muito alta oração.[xxiii]

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