O “conspiracionismo” à luz da doutrina católica

O “conspiracionismo” à luz da doutrina católica

04/06/2020 0 Por Carlos Joaquim
José Antonio Ureta –
Antonio Guterres, ex-presidente da Internacional Socialista e atual Secretário-Geral da ONU, concedeu uma entrevista ao Osservatore Romano, publicação que tem funcionado por volta dos últimos 160 anos como órgão oficioso da Santa Sé. À pergunta de como enfrentar o sentimento de pânico que ultimamente se tem difundido entre as pessoas, o alto dignitário respondeu, em uma velada referência às acusações levantadas contra o governo comunista da China, que “nas últimas semanas houve um aumento das teorias da conspiração e dos sentimentos xenófobos”. Segundo ele, o alimento do pânico seria “uma epidemia de desinformações”, uma verdadeira “montanha de histórias e postagens enganosas publicadas nas mídias sociais”.
Para retificar essas “desinformações”, Guterres informa ter “lançado uma iniciativa de resposta das Nações Unidas às comunicações denominada Verified, com o objetivo de fornecer às pessoas informações precisas e baseadas em fatos”, e encoraja os líderes religiosos a utilizar as próprias redes de comunicação para “apoiar os governos na promoção das medidas recomendadas de saúde pública da Organização Mundial da Saúde — do distanciamento físico à boa higiene — e negar informações falsas e rumores”[i].
O que fica claro na entrevista é a existência de um entrechoque entre duas visões da chamada “crise do coronavírus”, que deveria chamar-se mais apropriadamente “crise do confinamento”: uma é a versão oficial, amplamente disseminada pela grande mídia, outra é a versão alternativa, restringida às redes sociais. Mas esta versão alternativa está de tal maneira ganhando adeptos, que a ONU se viu obrigada a montar uma dupla ofensiva de descrédito através do seu sistema Verified, destinado a monitorar e replicar tudo aquilo que circula nas redes sociais, tachando com a etiqueta infamante de “conspiracionismo” os que ousarem questionar a versão oficial. Uma etiqueta que obedece ao mesmo propósito do velho rótulo de “fascista”: denegrir e silenciar os opositores.
Já antes dessa entrevista de Guterres tal etiqueta havia sido empregada pelos bispos alemães para qualificar o apelo promovido pelo arcebispo Carlo Maria Viganò, o que representou da parte deles um estratagema vergonhoso para fugir ao debate com os cardeais e prelados que assinaram o documento de Dom Viganò.
Qual o valor dessa etiqueta? Tem algum cabimento, do ponto de vista da doutrina católica, a hipótese de uma conjuração anticristã? Como interpretar a “nova normalidade” pós-confinamento: será uma evolução espontânea, ou o resultado de uma da maior operação de engenharia social e de baldeação ideológica da História, como denunciou recentemente o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira?
São três aspectos da questão que mereceriam um livro, mas que abordaremos o mais sumariamente possível no presente artigo.
Qual é o valor científico do rótulo “conspiracionista” e dos estudos sociológicos sobre as “teorias da conspiração”
Os sociólogos que popularizaram o conceito de “Teorias da Conspiração” as descrevem como explicações simplistas de eventos naturais ou humanos que resultariam da ação maligna de um grupo de pessoas — uma minoria ou todo um “sistema”— que agem em segredo para um fim distinto da versão “oficial” ou “óbvia”. Aos olhos dos adeptos dessas teorias, a trama oculta tornar-se-ia exposta se se vinculassem diversos eventos ou detalhes desconexos, mas discrepantes com a versão geralmente admitida (ou não explicáveis por ela), e que só se esclareceriam caso se admitisse a hipótese de uma maquinação.
Segundo tais sociólogos, os inventores e os seguidores de tais explicações seriam pessoas ofuscadas pela complexidade da realidade ou, pior, espíritos paranóides que julgam que a força motriz dos eventos da História não é o operar livre das pessoas ou o azar, mas uma conspiração de dimensão apocalíptica, fruto da luta entre o bem absoluto e o mal absoluto, diante da qual tais espíritos doentios se sentem vítimas impotentes.
A popularidade das teorias da conspiração seria também o resultado da ansiedade experimentada pelas sociedades ocidentais contemporâneas diante dos cenários inquietantes da atualidade: catástrofes ecológicas, terrorismo, fragmentação e complexidade crescentes da realidade, rapidez das mudanças, velocidade da informação, riscos associados às novas tecnologias etc. Contribuiria igualmente para tal sucesso a sensação da perda de valores éticos e religiosos e de regras sociais claras, conduzindo a uma desconfiança em relação às instituições sociais existentes e à impressão de perda de controle sobre o entorno em que a pessoa vive.
De onde um elevado número de pessoas hoje acreditarem em diversas “conspirações”: desde as que teriam provocado o assassinato de John Kennedy (atribuído à CIA ou à máfia siciliana), a morte de Lady Di (tramada pelos serviços secretos britânicos) e o atentado islamista às Torres Gêmeas (supostamente organizado pela Mossad israelense ou a CIA), até as fantasiosas teses de que a chegada do homem à lua foi uma fotomontagem ou de que a Terra na realidade é plana.
Nesse conceito sociológico de “teorias da conspiração” e na etiqueta “conspiracionista” esgrimida contra aqueles que questionam a versão oficial ou a explicação midiática de algum acontecimento ou realidade há dois aspectos contestáveis.