A vida na prisão dos pais que matam filhos. Os que não se suicidam são violentamente agredidos

A vida na prisão dos pais que matam filhos. Os que não se suicidam são violentamente agredidos

15/05/2020 0 Por Carlos Joaquim
Choques elétricos, dedos entalados em portas até ficarem partidos, pontapés e murros são as agressões mais comuns sofridas pelos reclusos que matam os filhos. Muitos suicidam-se. Os presos mais jovens são os que mais os agridem. Especialistas reclamam mais psicólogos nas cadeias para acompanhar estes casos.
Naquele dia, como de costume, João Cerqueira Pinto foi buscar a filha à escola e, já em casa, ajudou-a com os trabalhos do dia. Depois, foi para a cozinha preparar o jantar. O seu e o da filha, como também fazia sempre. Maria João, 7 anos, desapareceu uns minutos, para ir à casa de banho. Quando voltou, o pai agarrou-a, pôs-lhe o cinto do roupão à volta do pescoço e sufocou-a. «Inclinei-me e puxei as pontas do cinto. Ela estrebuchou um pouco, mas não gritou», contou o homem que, em 2009, chocou a população de São Mamede de Infesta, Matosinhos, com o homicídio da filha. Este é apenas um de muitos casos de pais que matam os filhos.
Um ano mais tarde, João Cerqueira Pinto foi encontrado enforcado na cadeia de Paços de Ferreira, nu da cintura para baixo. O homem, que a vizinhança e amigos consideravam um pai extremoso, muito apegado à criança, nunca explicou o que o tinha feito matar a filha. Durante o julgamento disse apenas que estava «perturbado» pelo divórcio recente. E terá sido por isso que, depois do crime, enviou uma mensagem escrita à mãe da criança a contar o que se tinha passado.
Colocado em prisão preventiva na cadeia de Custóias, em Matosinhos, tentou suicidar-se, depois de sofrer alguns episódios de psicose e alucinações. Foi transferido posteriormente para a ala psiquiátrica do hospital-prisão de Caxias, onde ficou durante algum tempo em vigilância. Foi, depois, enviado para Paços de Ferreira, e recebido num clima de grande tensão pelos outros reclusos. No dia da sua chegada foi insultado e ameaçado, tendo acabado por se suicidar, em 2010.
O presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (SNCGP) conta que «este tipo de recluso tem de ficar permanentemente separado dos outros, para prevenir este tipo de situações». «Não há regras nenhumas e temos de ser nós, guardas, a tentar minimizar os danos. As agressões são frequentes e muitas são evitadas porque conseguimos intervir», remata. Situações que poderiam evitar-se se «os reclusos fossem separados por tipologia de crime».
Choques eléctricos, dedos entalados em portas até ficarem partidos, pontapés e murros (principalmente na cabeça) são as agressões violentas mais comuns sofridas pelos reclusos que cumprem pena por filicídio (assassínio dos próprios filhos). Jorge Alves confirma que os pais que matam os filhos são recebidos com muita animosidade pelos outros presos, e que na maioria dos casos sofrem agressões físicas e verbais de forma continuada. Estes homicidas especiais tentam muitas vezes o suicídio, por «peso na consciência» e «para fugir às pressões de que são alvo».
Foi o que aconteceu também a Francisco Esperança, que em 2012 matou a mulher, a filha e a neta, acabando enforcado no Estabelecimento Prisional de Lisboa, para onde tinha sido enviado por receio de represálias por parte dos outros reclusos, já que estes «nunca deixam passar em branco este tipo de crimes que envolvem crianças».
O bancário reformado, licenciado em Direito, causou reboliço na prisão quando a população prisional soube de quem se tratava. Foi preciso acalmar os ânimos aquando da sua chegada ao estabelecimento. Francisco Esperança era o homicida de quem todos falavam na altura – tinha dizimado toda a família, matando-a à catanada, num dos crimes mais sangrentos de que há memória. O massacre fez inúmeras manchetes de jornais e foi considerado um dos piores crimes de sempre no nosso país. Segundo apurámos, houve quem fizesse apostas para saber «quanto tempo ia durar». Dias depois da sua chegada à prisão, enforcou-se na cela com os lençóis da cama, a 17 de Fevereiro de 2012. O Ministério Público (MP) abriu um inquérito para apurar o que tinha, de facto, acontecido.