Teatro comunitário lusófono de Berlim cria radionovela em confinamento

Teatro comunitário lusófono de Berlim cria radionovela em confinamento

09/05/2020 0 Por Carlos Joaquim
O grupo de teatro comunitário “Raízes”, formado por portugueses e brasileiros a viver em Berlim, criou uma radionovela chamada “As Berlindezas”, durante o confinamento instaurado por causa da pandemia de covid-19.
O projeto retrata o momento presente, através de personagens fictícias, “num misto de realismo e alucinação, num prédio peculiar de Berlim, habitado por oito mulheres lusófonas”, contou à agência Lusa Maria de Vasconcelos, fundadora e coordenadora do grupo.
A radionovela, que começou a ser divulgada na semana passada, surge numa altura em que o grupo, formado por 12 mulheres e dois homens, se viu obrigado a interromper os ensaios presenciais, por causa da pandemia de covid-19.
O “Raízes” tinha o primeiro espetáculo, “Identidade e emigração”, agendado para 26 de junho, mas a estreia teve de ser adiada.
A experiência de viver fora do país esteve aliás na origem da criação do grupo teatral, no final de 2019.
“O objetivo, definido desde o início, é criar um espetáculo sobre a identidade e a emigração. Perceber até que ponto a saída do nosso país nos transforma”, explicou Maria de Vasconcelos, que “nunca tinha dirigido um grupo de teatro comunitário, mas já tinha vontade de o fazer há muito tempo”.
“Achei que aqui iria ser complicado por causa da língua. Apesar de falar alemão, encenar e dar aulas no idioma é mais complicado”, contou a portuguesa, a viver na Alemanha há sete anos.
A alternativa foi criar um grupo de língua portuguesa, formado por portugueses e brasileiros.
“Infelizmente não tinha muito dinheiro para divulgar [o grupo] e não consegui chegar a outras comunidades lusófonas. Mas somos todos muito diferentes, com profissões e idades variadas, entre os 28 e os 60 anos”, explicou Maria de Vasconcelos.
Para Camile Papazian, esta é a primeira experiência teatral. “A única apresentação em público que fiz na minha vida foi corporativa, ou seja, para a empresa onde trabalhava”, contou a brasileira, que já tinha vontade de “desenvolver a expressão corporal”, mas no Brasil não tinha tempo para atividades extra.
“Quando vi que éramos brasileiros e portugueses pensei: ‘Está tudo em casa’. Percebi que há algumas diferenças, há palavras que eu não entendo, mas fomos comunicando de uma forma muito especial e agora somos um grupo muito coeso. Com eles não tenho vergonha nenhuma de atuar nem de fazer exercícios, sinto-me muito à vontade”, acrescentou Camile.
“O objetivo de um grupo comunitário não é só a criação do espetáculo, é também que este grupo funcione como uma comunidade que se entreajuda e se torna quase uma família. É também uma forma de ativismo, uma forma de termos uma voz e a apresentarmos aos outros”, frisou Maria de Vasconcelos.