Sem emprego imigrantes dependem de associações para comer

Sem emprego imigrantes dependem de associações para comer

30/04/2020 0 Por Carlos Joaquim
Centenas de imigrantes a quem a pandemia de covid-19 tirou o emprego encontram agora na Associação Mundo Feliz “a única ligação” uma rede de apoio no país onde vivem e que lhes garante um saco de comida por dia.
Quando na quarta-feira os relógios bateram as 09:00 já marcavam uma hora de espera e ansiedade. Em Algés, concelho de Oeiras, desde as 08:00 que a fila se alongava rua afora até à porta da associação que passou a ser o garante de sobrevivência de centenas de pessoas e famílias. O “Mundo Feliz” prometido no nome e escrito na porta apresenta-se agora como uma triste ironia para quem faz fila por um saco de alimentos e delimita uma fronteira entre o antes e o depois da pandemia.
“Podemos dizer que a vida das pessoas desde que começou a pandemia mudou totalmente. Temos 9.000 associados inscritos, mais de 5.000 ficaram sem emprego. Quer dizer que muita gente neste momento não está a receber apoios de lado nenhum”, disse Cecília Minascurta, presidente da Associação Mundo Feliz, uma instituição de apoio à integração de imigrantes, que ajuda nos pedidos de legalização e nacionalidade, inscrição na Segurança Social, procura de casa e emprego, abertura de contas bancárias, formação e apoio jurídico, entre outros aspetos.
A este universo junta-se um crescimento no apoio alimentar, que já existia, mas que agora chega a mais de 800 pessoas por mês, o triplo das 200 a 300 pessoas que costumavam ajudar.
“É uma diferença muito grande. Os números triplicaram, às vezes não temos suficientes apoios. Às vezes estamos a parar para fazer mais sacos”, disse Cecília Minascurta.
Às 11:00 de quarta-feira, num dia em que esperavam receber entre 300 a 400 pessoas, já era a terceira fila que as técnicas da associação atendiam. Pelo meio houve uma paragem para encher mais sacos de bens essenciais, colocados numa mesa à porta da instituição e onde quem precisa se dirige, esteja ou não inscrito. Cecília Minascurta diz que não deixam de apoiar ninguém.
Sem emprego, imigrantes dependem de associações para comer ...
Há palavras de apoio para quem já é presença habitual e perguntas para ajudar a enquadrar a ajuda necessária para quem chega de novo. Há quem passe e saia com dois sacos e um “força, tudo a correr bem”, há quem pergunte se pode levar mais qualquer coisa, porque a família é grande, há quem leve uns doces extra que não estavam no saco, para alegrar as crianças em casa.
Jorge Beloz, chileno, também fez fila na quarta-feira. Aterrou em Portugal em setembro e recorreu à ajuda da associação desde o primeiro dia em Lisboa para tratar da sua regularização. Agora, sem o emprego de vitrinistas, Jorge e o companheiro precisam dela também para comer.
“Estávamos a fazer montras, em lojas de decoração. Como está tudo fechado não podemos trabalhar. Estamos à espera do que vai acontecer quando acabar o confinamento. Não sabemos se os nossos clientes vão ter dinheiro para nos poder contratar para fazer as montras”, disse.
O dia-a-dia no país “tem sido muito difícil, mas ainda assim tranquilo, porque em Portugal as coisas têm funcionado bem”, sobretudo em comparação com o Chile, comentou.
Adriano Azevedo tem uma dupla preocupação e uma dupla necessidade. Em Portugal há dois anos e meio, o cidadão brasileiro e o filho, ambos empregados na área do espetáculo, estão sem trabalhar já desde fevereiro. Foi o primeiro setor a ressentir-se, com muitos adiamentos e cancelamentos, e pode ser dos últimos a retomar a normalidade.
“Eles estão pedindo para evitar o máximo possível e a gente tem que compreender, mas é uma situação difícil”, disse, adiantando que tem contado com o apoio da associação para procurar emprego nesta fase.
O desemprego foi “o milagre da multiplicação” dos problemas para a Mundo Feliz.