ENTREVISTAS | Márcia Amaral: “Regras absolutas não servem na cobertura de acontecimentos extremos”

ENTREVISTAS | Márcia Amaral: “Regras absolutas não servem na cobertura de acontecimentos extremos”

17/04/2020 0 Por Carlos Joaquim

Mesmo para jornalistas com vasta experiência, narrar uma pandemia global é tarefa que está longe de ser simples ou livre de dilemas. Isolamento de indivíduos, rearranjo nos modos de trabalho e as vidas que foram perdidas pelo coronavírus são apenas alguns dos impactos mais imediatos na população. No caso do jornalismo, há interferências no seu processo produtivo, à medida que profissionais passam a apurar boa parte das informações em suas casas, a partir de estruturas técnicas limitadas e sem contato físico com entrevistados. Os desafios para informar o surto de maneira significativa são globais, mas sujeitos a importantes variações locais.
Nem tudo é novidade, entretanto: algumas questões morais são comuns a coberturas de tragédias e surgem redimensionados no Covid-19. Quais cuidados éticos devem preocupar jornalistas? Como lidar com fontes enlutadas ou que passaram por traumas recentes? É possível escrever sobre temas delicados sem apelar para uma linguagem sensacionalista? Olhar para coberturas anteriores de surtos globais pode ser uma alternativa para a estruturação de histórias construtivas com ênfase no que as pessoas podem fazer na fase pós-coronavírus.
Para a pesquisadora Márcia Franz Amaral, nenhum profissional se torna especialista no coronavírus de um dia para o outro, assim como nenhum jornal consegue criar uma estrutura de cobertura de uma hora para outra. Professora do curso de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (PPGCOM/UFSM), Amaral estuda coberturas jornalísticas de desastres desde 2011, e assinala que acontecimentos complexos dificilmente são previstos ou narrados em sua totalidade pelo jornalismo – embora riscos e vulnerabilidades possam ser antecipados.
Diversos fatores estão envolvidos em uma tragédia e conferem complexidade ao acontecimento, explica a pesquisadora. Os sentidos que compõem uma catástrofe modificam-se ao longo da história e “têm grande poder de afetação, pois só existem porque destroem, mas ao mesmo tempo desvelam problemas sociais, ambientais e econômicos”.
É essa multiplicidade de causas que pode colidir com a lógica das rotinas jornalísticas. “A cobertura compassada com o tempo cronológico do desastre é fundamentalmente anestesiante”, sintetiza a professora. “Nestas condições, a apuração, que é o diferencial do jornalismo, ocorre de maneira fragilizada, superficial, em tempo real e a conta gotas”.
Assim, temáticas outrora negligenciadas pela grande imprensa emergem nas manchetes de jornais e são destacadas nas escaladas de programas noticiosos em horário nobre da TV brasileira: o papel do Estado na crise, desemprego, trabalho informal, falta de água e de saneamento. “A desigualdade social saltou na cara do jornalismo tradicional”, reitera. Nesse sentido, cabe à informação jornalística de qualidade articular diferentes campos – político, social, econômico -, “iluminar explicações possíveis, dotar este desastre de inteligibilidade, configurar seu passado e antever seu futuro”.
Márcia Amaral é pesquisadora CNPq, líder do Grupo de Pesquisa Estudos de Jornalismo e organizadora do livro Periodismo y Desastres, publicado peça Editora da Universidade Oberta de Catalunya (UOC) e o Institut de la Comunicació da Universitat Autònoma de Barcelona (InCom-UAB) em setembro de 2019. Na entrevista a seguir, a professora discute aspectos da cobertura jornalística no Brasil, algumas lições a partir de desastres anteriores, como os casos Kiss e Mariana, e o papel desempenhado pelas testemunhas nas tragédias.

Como estamos vendo, a pandemia do coronavírus domina o noticiário. De forma geral, qual é a sua avaliação da narrativa sobre o COVID-19 na mídia brasileira? Algum exemplo chamou sua atenção, positiva ou negativamente?
É difícil fazer uma avaliação generalista da cobertura midiática. De maneira geral, creio que o jornalismo está vivendo um momento de resgate de sua importância, pois a Covid-19 reconectou muitos cidadãos (inclusive os jovens) ao jornalismo. Grandes portais, jornais, rádios e emissoras de televisão batem recordes de público e aplicativos de notícia nunca foram tão procurados. Mas isso não significa uma redenção do jornalismo como negócio porque há extrema dificuldade de monetizar todas estas audiências. Muitos pequenos jornais já estão em crise e demitem seus profissionais. Em outros países que estão vivenciando esta experiência, percebe-se que o acesso ao jornalismo cresce nas primeiras semanas e, posteriormente, há uma saturação. Entretanto, podemos afirmar que há um crescimento ao menos temporário de audiência e de seguidores dos veículos tradicionais de comunicação.
Mas é preciso pontuar que por outro lado, temos no país um deserto de notícias que impede certas regiões de terem acesso a informações locais que são tão importantes para a vida cotidiana do cidadão comum. Cabe também lembrar do desmonte da comunicação pública no Brasil e a necessidade de ela ser reestruturada em outras bases para que seja acionada em momentos tão importantes como o que estamos vivendo.
Quanto à cobertura da grande mídia, observamos um certo redirecionamento. Mesmo que estas grandes empresas de comunicação tenham apoiado o projeto do governo e suas medidas econômicas, obrigam-se agora a dar um passo atrás e a defender, por exemplo, verbas para a pesquisa e a cobrir parte das vulnerabilidades sociais no Brasil.
Por um lado, temos uma cobertura direcionada totalmente às classes média e alta, até porque no caso da Covid-19, há uma camada da população que pode se proteger mais do que as demais. Aí cabe o discurso de que não contrair o vírus só depende de nós, ou seja, há culpabilização antecipada dos futuros afetados. Há uma grande dificuldade tanto do jornalismo como da comunidade científica de elaborar um discurso que leve em conta as experiências da maioria da população. Boa parte do discurso dos epidemiologistas, fontes dos jornalistas, ainda está focado na lavagem das mãos, no distanciamento social, no uso de máscaras, no pagamento de contas com cartões bancários ou nas compras virtuais ou por telentrega.

Ler a entrevista na íntegra em https://aveiro123.blogspot.com/2020/04/entrevistas-marcia-amaral-regras.html