Covid-19. Adriana despediu-se do pai através de chamada telefónica

Covid-19. Adriana despediu-se do pai através de chamada telefónica

16/04/2020 0 Por Carlos Joaquim

Em plena pandemia da covid-19, os doentes mais graves acabam por perder a batalha sozinhos, longe dos familiares. Foi o que aconteceu a Martinho Miranda Ribeiro, de 79 anos.

Nos hospitais portugueses, são muitas as pessoas que acabam por perder a luta contra a Covid-19 longe dos familiares. Não se escolhem flores e a gestão de quem pode estar no último adeus é quase matemática. Adriana despediu-se do pai em tempo de pandemia por videoconferência graças a uma médica à qual, “quando tudo passar”, quer dizer “obrigada”.
Vinte dias separam a última visita que Adriana fez ao pai – Martinho Miranda Ribeiro, de 79 anos, reformado, apaixonado pela música e residente em Vila do Conde, distrito do Porto, Conforta-a saber que Martinho sabia que era amado e que a perda foi “uma inevitabilidade” em tempos da pandemia da covid-19. Sossega-a saber que o pai “teve uma boa vida”. Alivia-a saber que “fez tudo o que podia”, conta à Lusa, menos de um mês depois de um funeral no qual estiveram “talvez 10 pessoas”.
“O caixão chegou. Estávamos com máscara e afastados. Não escolhemos nada: nem caixão, nem flores, nada. Percebi que havia uma urgência das autoridades e da funerária em fazer o enterro. Enterrámos o meu pai e agora é isto. Viver com isto. O que me ajuda a fazer o luto é a própria personalidade do meu pai que dizia que quando morresse não queria luxos, nem preto, nem choros. Só música. Teve um funeral discreto como ele queria e como eu nunca imaginei”, descreve.
Martinho Miranda Ribeiro, que tocava concertina no Rancho das Caxinas e tinha 12 irmãos, tinha gerido um café e um restaurante depois de regressar a Portugal vindo do Brasil. Morreu a pouco tempo de completar o 50.ª aniversário de casamento que aconteceria em maio e planeava a “grande festa que ia fazer” há um ano.
“Para a minha mãe, que perdeu o companheiro de 50 anos, tem sido difícil. Porque não o viu, não sabe se ele foi bem tratado. Pergunta-se: será que morreu sozinho? Será que sofreu?”, conta.

“Não conseguem visualizar como é que o seu familiar morreu”

Estas são perguntas que o presidente da Delegação Regional Norte da Ordem dos Psicólogos (OPP-DRN), Eduardo Carqueja, conhece bem. Em declarações à Lusa, o psicólogo explica que “o que está a acontecer [em tempos de pandemia] é que muitas famílias não conseguem despedir-se, não conseguem visualizar como é que o seu familiar morreu” e, por isso, “imaginam”.