QUANDO A PESTE FECHOU A INVICTA. ASSIM FOI O ÚLTIMO CERCO AO PORTO
5 abr 2020
O Porto foi o epicentro nacional da terceira pandemia da peste bubónica na Europa. Numa semana marcada pela possibilidade de um cerco sanitário à Invicta para combater a propagação do novo coronavírus, o SAPO 24 recua até 1899 para lhe relatar a última vez que a cidade foi forçada a fechar-se.
No quarto dia de julho de 1899, Ricardo Jorge recebeu um bilhete, “enviado por um comerciante da Rua de São João”, que chamava a atenção para “mortes inopinadas e consecutivas” na Fonte Taurina, na zona da Ribeira, junto ao rio. O médico municipal da cidade do Porto não demorou até ir visitar os infetados e volvidos dois dias alertava as autoridades para aquilo que observara naqueles “prédios miseráveis e imundíssimos”, junto aos cais do Douro, onde viviam os carrejões espanhóis que se debatiam com uma “epidemia de febre infecciosa”. Oito dias mais tarde, comunica em relatório ao Governador Civil, que a “sintomatologia e a marcha da epidemia assemelham-se às da peste bubónica”, a doença que no século VI matou entre 25 a 50 milhões de pessoas e que no século XIV se acredita que tenha sido a causa da peste negra que devastou a Europa, África e Ásia, causando 50 milhões de mortes.
A doença colocaria a nu uma cidade com condições de vida e higiene pré-industriais, quase medievais. O Porto que introduziu a luz elétrica em 1886, importou o primeiro carro em 1895, que à beira do virar do século era pioneiro na fotografia e no cinema, contrastava com a “cidade cemiterial” e “mortuária” descrita por Ricardo Jorge:
“Cada vez mais insalubre, a cidade não tem nas condições devidas nem água, nem esgotos, esses dois elementos imprescindíveis de limpeza, que a experiência tem demonstrado reduzirem a cifra da mortalidade geral. O hospital é um antro infecto, onde se amontoam doentes fora de todos os limites da tolerância e num desprezo repugnante das leis mais comezinhas da boa higiene. As classes pobres, o mundo dos proletários, vegetam ancoradas nuns alvéolos húmidos e lôbrengos, sem ar e sem luz, e abandonadas a uma especulação torpe que tão sordidamente as explora com a miserável edificação das ilhas. Há a desfiar um estendal de misérias e vergonhas, de males e de incúrias. É forçoso lavrar um protesto contra tanto desleixo, contra tanta inépcia, contra tanta loucura criminosa” .
Ricardo Jorge, que começou mostrar fascínio pela neurologia e hidroterapia, viria a destacar-se na área da saúde pública. Ganhou espaço e visibilidade com a realização de quatro conferências sob o título “A higiene em Portugal; A evolução da sepultura; Inumação e cemitério; A cremação”, que lhe valeram o convite de Oliveira Monteiro, então presidente da Câmara Municipal do Porto, também médico e seu colega, para integrar uma comissão técnica de estudo sobre as condições sanitárias da cidade.
O estudo, apresentado publicamente em 1888, para além de evidenciar uma elevada taxa de mortalidade (32,9%), muito superior à de zonas rurais (25%) e de outras cidades europeias, mostrava que “o problema que a todos sobreleva, que na cidade atinge toda a sua complexidade e importância, é o problema sanitário, provocado pelas condições materiais da vida em comum num espaço limitado. O formigueiro humano germina em si próprio o veneno da sua destruição. A vida social ganha em intensidade à custa da duração da vida individual”.
Para o Porto mudar enquanto cidade eram necessárias duas medidas fundamentais: “fornecer água pura, captada e canalizada; praticar a desinfecção e o saneamento”. As principais propostas para o combate aos problemas de salubridade baseavam-se no exemplo das cidades inglesas. Ricardo Jorge sugeria um conjunto de propostas que passavam por um inquérito ao saneamento, esgotos, natureza do solo, estatística populacional e legislação municipal, a criação de serviços de exaustão pneumática de fossas, uma organização completa do serviço de limpeza viária e remoção do lixo, a criação de sanitários públicos pela cidade, entre outras.
O relatório teria como consequência o convite da vereação da Câmara Municipal para que Ricardo Jorge ficasse à frente dos Serviços Municipais de Saúde e Higiene da Cidade do Porto, responsabilizando-se ainda pela secção bacteriológica. A intervenção levado a cabo na cidade prestigiavam o homem que aos 37 anos, em 1895, subia a “lente proprietário” [posição académica semelhante à de um professor catedrático] da cadeira de Higiene e Medicina Legal na Escola Médico Cirúrgica do Porto.