A Leonor não cabe na campanha

A Leonor não cabe na campanha

16/01/2020 0 Por Carlos Joaquim
A morte de Leonor vai ficar nos registos do Hospital Garcia de Orta. O hospital público onde teve o tratamento que merecia. Infelizmente, tarde demais. Leonor, com 12 anos, tinha dores fortes e febre. Foi atendida pela primeira vez a 17 de Dezembro na CUF , fez análises para saber se tinha uma infeção urinária e depois foi medicada para um problema muscular. A 20 de dezembro piorou e no dia seguinte voltou ao hospital. Nem a camisola a mandaram tirar, diz a mãe. Com enormes dores, gritou. A pediatra disse que ela não podia sentir tantas dores depois do medicamento que lhe tinha sido ministrado. Aconselhou uma consultada com um pedopsiquiatra. Estaria a pedir atenção.
A 22 de dezembro, Leonor entrou em hipotermia e tinha manchas roxas no corpo. O INEM levou-a até ao Hospital Garcia de Orta. Aí, fizeram-se todos os exames que não tinham sido feitos. Análises ao sangue, TAC ao tórax, raio-x, tudo o que na CUF não fizeram, conta a mãe de Leonor. O TAC ao tórax revelou o músculo cheio de sangue. Quando os médicos lhe iam fazer uma TAC ao cérebro, Leonor entrou em paragem cardíaca. Foi reanimada uma vez, mas não resistiu à segunda. Tinha uma ruptura no baço. Apesar da tragédia, a mãe diz que foram incansáveis no Garcia de Orta. E deixou um aviso aos amigos: “os hospitais privados não são melhores que os públicos”.
Deixei aqui os factos. Depois disto poderia passar para conclusões sobre o que a médica da CUF poderia ter feito e não fez. Não faço isso. Porque não sei porque não o fez. Porque a acusação de negligência médica é gravíssima e estou farto de esquadrões de justiceiros que crucificam profissionais. Porque ser médico é estar quotidianamente exposto ao erro. Por isso espero pelas conclusões do inquérito depois da sua suspensão.
Poderia fazer um julgamento sobre o Hospital da CUF de Almada. Mas para isso precisaria de saber que indicações têm os médicos em relação às análises que devem e não devem mandar fazer. Saber se há falta de meios para que se faça o diagnóstico. Saber se, havendo meios, se tenta poupar. Não sabendo nada disto, não tenho qualquer razão para não acreditar que houve um fatal e lamentável erro. Que até pode vir a ser justificado, porque negligência não é o mesmo que falhar. Falhar é da natureza da atividade médica.

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