Mundo | Uma criança foi assassinada e as insinuações da extrema-direita obrigaram o Governo alemão a montar um gabinete de crise

Mundo | Uma criança foi assassinada e as insinuações da extrema-direita obrigaram o Governo alemão a montar um gabinete de crise

01/08/2019 0 Por Carlos Joaquim
Num país crispado, onde a presença de estrangeiros divide opiniões e alimenta conflitos, até um crime já por si horrível pode tornar-se algo mais. É o caso de um homicídio na Alemanha, que de repente se tornou bandeira para defender princípios xenófobos: um menino de oito anos morreu atropelado por um comboio de alta velocidade na estação central de comboios em Frankfurt, depois de ter sido empurrado para os trilhos por um homem de 40 anos de origem eritreia.
Aconteceu segunda-feira, ao início da manhã, e também a mãe da criança e uma outra mulher, de 78 anos, foram empurradas. As duas escaparam. O suspeito fugiu, mas graças à intervenção de algumas testemunhas acabou detido pela polícia.
Entre a comoção e o ódio, o caso tornou-se um fósforo num ambiente social à beira do incêndio – a ponto de o ministro da Administração Interna, Horst Seehofer, ter interrompido as suas férias e convocado um gabinete de crise em Berlim. Esta quarta-feira partilhou alguns dos dados apurados pelos investigadores para classificar o ocorrido como “um assassinato a sangue frio”, mas também para pedir contenção, condenando os comentários assumidos pela extrema-direita, que não perderam tempo a usar o crime como arma política.
“O país está polarizado”, disse Horst Seehofer, e apesar de os níveis reais de criminalidade estarem baixos, acrescentou, “o sentimento de segurança na população está agora muito afetado”. Medidas rigorosas devem ser tomadas contra os criminosos, defendeu Seehofer, mas sublinhando que “não podemos permitir nem a exploração nem a minimização de crimes por imigrantes”.
Sendo desde logo dado como certo que não existia qualquer ligação entre o suspeito e as vítimas, as notícias foram acompanhando as pistas e os factos: Habte Araya, pai de três filhos, chegou à Suiça em 2006 e obteve asilo dois anos depois. A polícia referiu-se ao seu percurso como “um exemplo de integração”, pelo menos até janeiro deste ano, enquanto manteve um emprego fixo. Disse também que desde a semana passada era procurado pelas autoridades de Zurique por ter fechado em casa a sua família e por ter ameaçado uma vizinha com uma faca. Da Suiça chegaram informações de que estava a receber tratamento psiquiátrico, sem qualquer indicação que apontasse para ter praticado o crime por razões ideológicas. Também não foram encontrados nas análises efetuadas após a sua detenção quaisquer vestígios de álcool ou de droga.