Opinião | Valerá a pena mentir?
«Diz-me: valerá a pena mentir?» perguntei, um dia, a um estudante. «Não!» respondeu-me com firmeza. «E então porquê? «Porque, cedo ou tarde, a mentira é descoberta, e, então, adeus honra!».
Isto é ainda um argumento. Não poderemos imaginar uma situação mais vergonhosa que a de uma pessoa que até agora era rodeada de consideração e respeito, em cuja palavra se acreditava, e que acaba de ser apanhada em flagrante delito de mentira. É verdade que, cedo ou tarde, todo o mentiroso é conhecido por tal e passa a ser tratado como persona non grata.
«Bom!, diz outro, não se minta, se se é um poltrão! Mas, quando se é inteligente, pode-se bem mentir. Quando previamente se pensou no que se há-de responder a tal ou a tal pergunta que poderá vir a ser-nos feita, o triunfo é certo».
Admitamos que isso aconteça uma vez. Isso não acontecerá sempre, nem por muito tempo, crê-me. «Embora o burro se esconda detrás da porta, ficam-lhe sempre as orelhas de fora» diz um provérbio.
É em vão que um outro adágio latino adverte o mentiroso de ter uma boa memória – mendacem oportet esse memorem – cedo ou tarde, o mentiroso enrolar-se-á em suas contrariedades; ser-lhe-á preciso cobrir uma mentira com outra mentira para que a primeira fique pouco verídica; a segunda mentira chamará uma terceira, esta uma quarta, e assim por diante.
Aquele que abandona o caminho da verdade depressa se encontra em terreno alagadiço e nele se atola cada vez mais. A partir do dia seguinte, esqueceu o objecto da mentira da véspera, e, em breve, é a vergonha e a desonra.
A mentira é um monstro gerado pela língua; e os monstros de nascença nunca têm longa vida, como já foi escrito numa reflexão anterior.
Mas suponhamos que a mentira fica oculta. Há pessoas suficientemente hábeis para não se deixarem apanhar. Reflecte ainda um pouco no que haverá de seguir-se. É próprio da pessoa séria e ponderada ver, não somente os resultados imediatos de suas acções, mas também pesar-lhes os efeitos mais afastados.