SEPARADOS PELA MORTE
Não pode deixar de haver um sentimento de abandono e solidão. No nosso isolamento e desespero, podemos sentir-nos incapazes de enfrentar o futuro incerto. Algumas vezes a Morte surge em condições dramáticas e imprevistas.
Temos de nos sentir tristes, inevitavelmente, quando um ente querido parte para não mais voltar ao lar, onde juntos partilhámos a vida em mútua harmonia. Há uma grande diferença entre a situação da pessoa que sobrevive e a da que partiu, após a descida do véu que as separou, pois o que partiu já não sente as tristezas deste mundo. O sentimento de separação, ainda que desolador, é mitigado, quando meditamos sobre determinadas passagens da Sagrada Escritura.
O apóstolo Paulo diz que não nos devemos entristecer como os demais, que não têm a esperança que nós temos (I Ts 4:13). Ele refere-se aos que morreram na fé, como os que «dormem em Jesus», e afirma categoricamente que Deus os tornará a trazer com Ele, isto e, não se separaram de nós para sempre; haverá uma abençoada reunião, porque seremos arrebatados juntamente com eles, nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares.
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| Será que tudo termina aqui neste lugar? Estamos neste mundo por engano? |
(Porque toda a carne é como a erva, e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor, I S. Pedro 1:24).
Ansioso espero entrar/ Na terra além do véu;/ Dos santos o feliz lugar,/ Jerusalém do Céu. No corpo preso vou;/ As glórias longe estão;/ Mas cada vez mais perto estou/ Da pátria do cristão.
A morte é descrita como a dissolução deste tabernáculo (o corpo). O dia virá quando o que é corruptível se revestirá da incorruptibilidade, e o que é mortal se revestirá da imortalidade. Quando este tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna nos céus (2ª. Co. 5:1,2). O corpo é comparado a uma barraca de campanha, abrigo ligeiro, para uso temporário, semelhante às tendas dos beduínos, que podem ser levantadas a toda a hora. Feliz o homem que, espiritualmente, está pronto para se encontrar com o seu Criador.
Não esqueçamos que este tabernáculo, em que vivemos temporariamente, pode ser desfeito (v. 1), pois é bem frágil e dificilmente suporta os conflitos e tempestades da vida. Este tabernáculo terrestre (nosso corpo), em que gememos e de que ansiamos libertar-nos, vai dar lugar à nossa à nossa habitação celestial. Em contraste com a tenda de campanha, será uma sólida construção, um edifício que permanecerá para sempre. A mesma palavra é usada para descrever o Templo de Herodes (Mc 13:1). Será uma habitação perfeitamente adequada e adaptada à nossa vida na Glória. Presentemente, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor, mas quando se der a dissolução, então estaremos ausentes do corpo e presentes com o Senhor no Lar celestial (2 Co 5:8).
A morte também é descrita como uma saída – literalmente êxodo (2 Pe 1:15), isto é, saída para fora do corpo. Mas, se é uma partida, também é uma entrada, pois no mesmo contexto Pedro diz que nos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
A morte, vista deste lado, é uma saída, mas observada do outro lado é uma entrada. É como se
fôssemos transplantados dum vaso quebrado, para desabrocharmos mais perfeitamente no jardim celestial; é como a passagem por um pequeno túnel, curto e escuro, para emergirmos imediatamente naquela nova terra, onde o Dia nunca acaba. Portanto, a Morte é:
1 – Adormecer em Jesus;
2 – Estar em Cristo, o que é muito melhor;
3 – Ser recebido no Lar Celestial;
4 – Habitar com o Senhor na morada que foi preparar para nós, os salvos por Ele (Jo 14:1-3).
Como tudo é diferente deste frágil tabernáculo terrestre. Na ressurreição, também, receberemos as coisas feitas no corpo (2 Co 5:10). Neste mundo, não temos visto o resultado ou a recompensa final de tudo quanto temos feito. As coisas que fizemos serão julgadas e então receberemos o merecido galardão.
Devemos, confiadamente, aceitar tal verdade, mas nos dias que se seguem ao da morte do ente querido, a dor parece difícil de suportar. Para vos dar um exemplo que possa ajudar-vos, prefiro citar as palavras dum outro escritor, em vez de vos narra a minha própria experiência.
Pouco depois do falecimento da esposa e da perda do único filho, o Bispo Moule diz: «Eu desejaria não ser fraco nem egoísta na minha dor, mas sou ambas as coisas, fraco e egoísta, contudo o meu Senhor pode e quer levantar-se, para pensar menos em mim e mais n’Ele e ajudar-me a cuidar mais dos que também lamentam a perda dos seus queridos. Devo tratar da minha saúde e, depois dum descanso de cinco ou seis semanas, prosseguir no meu
trabalho.» Noutra carta, passado pouco tempo, ele escreveu: «O Senhor Jesus guarda-me tranquilo e em paz: é agradável saber que a Sua mão está comigo. Assim, afasta Ele o negrume da solidão. A minha natural tendência é recordar e reviver o passado sem cessar, saudoso e lamentando-me mas, gradualmente, a nota predominante dá lugar à acção de graças por tudo quanto se passou. Eu descobri que a acção de graças, espontânea e diligente, é um valioso calmante.»
Há pessoas que passam horas sem conseguir dormir e que, ao recordarem certas datas, sentem uma estranha solidão e assim o seu espírito se perturba, invadido pela tristeza. Que remédio haverá para isto? Aprender e dar graças ao Nosso Senhor Jesus pelos admiráveis bens que uma recordação do passado pode trazer à memória; assim pode dissipar-se a sensação triste da solidão. Há coisas que perduram e não cessam de produzir fruto: elas continuarão a enriquecer-nos, tornando-nos ainda mais intimamente e duma forma geral ao provir de felicidade e santidade, de que participaremos quando deixarmos a Escola de Deus e o Seu ensino aqui em baixo, para passarmos à presença de Deus e lá nos encontramos com os ente queridos, cuja memória tão preciosa nos é.
Não devíamos viver só das gratas recordações do passado, mas devíamos disciplinarmo-nos, a fim de prosseguir com zelo sempre crescente nos deveres normais desta vida, pois a dedicada perseverança no Serviço do Senhor tem provado ser um admirável bálsamo para o espírito atribulado. Alguém, que tinha perdido a esposa e cinco filhos, disse: «Procurai força e graça para isto, e ser-vos-ão dadas.
Apesar de tudo, a sensação de tristeza pode perdurar até passarmos para além do véu, a despeito de todas as actividades da vida e agradáveis recordações. O Bispo Moule diz que, durante alguns dias, os seus pensamentos e os anseios da sua alma tinham por fulcro a sua saudosa esposa e filha.
Se não fosse por amor a Cristo, a sua vida teria sido inútil e infrutífera, mas Cristo tem o poder de tudo modificar! Ele dá-me capacidade, em certa medida, para compreender que é possível aceitar a perda dos entes queridos com tal resignação que nos conformamos com a situação, sobretudo se descobrimos que a nova situação nos permite prestar maior ajuda espiritual aos que sofrem.
NB: Este artigo foi publicado na Revista Evangélica “NOVAS DE ALEGRIA”, edição de Fevereiro de 1990, págs.32, 33 acompanhado de foto minha.


