Macroscópio – Conversando sobre a Bíblia, a nossa natureza, o nosso mundo e os nossos líderes

30 de Setembro, 2016 0 Por Carlos Joaquim

Macroscópio

Por José Manuel Fernandes, Publisher
Boa noite!

Sexta-feira. Dois dias de descanso pela frente e um Macroscópio que retoma a tradição destas alturas, isto é, a de reunir uma mão-cheia de leituras estimulantes – e desafiantes – não necessariamente relacionadas umas com as outras. Mas, espero, capazes de proporcionarem bons momentos e, sobretudo, permitirem que os meus leitores ganhem alguma coisa passando os seus olhos por elas neste sábado e domingo.

Uma nova edição da Bíblia. Diferente das demais


Frederico Lourenço, académico e tradutor, responsável por algumas das melhores traduções dos clássicos gregos, abalançou-se agora, a convite da Quetzal, a traduzir a Bíblia directamente da sua primeira versão em grego, a qual deriva também directamente do original hebraico. Há toda uma história em torno das diferentes traduções do texto sagrado, algo que Frederico Lourenço aborda na introdução a esta edição e que é também tema dos dois textos que vos recomendo de seguida.
O primeiro é uma entrevista ao tradutor, saída hoje no Público,Uma Bíblia que “não esconde as realidades inconvenientes”. Nela assume-se que a tradução não segue uma linha canónica: “Não há nada de ofensivo para católicos na minha tradução da Bíblia, mas há uma clara linha não-confessional que assumi de forma consciente. Não me deixei condicionar por nada daquilo que são as convenções aceites na tradução do Novo Testamento, quer católicas, quer protestantes. Ative-me apenas à materialidade linguística do texto. Não disfarcei as frases incómodas, não limei as arestas, não escondi realidades inconvenientes. Na minha tradução lê-se ‘escravos’ e não ‘servos’ ou ‘criados’; também não disfarcei as passagens misóginas e homofóbicas de Paulo. (…) Acho que a mais-valia da minha tradução é justamente o facto de estar fora do catolicismo, mas não contra o catolicismo”.
No Observador o padre, poeta e especialista em estudos bíblicos José Tolentino Mendonça faz a recensão da tradução e, elogiando o trabalho da editora e do tradutor, não evita abordar, em A Bíblia de Frederico Lourenço: aplausos e uma questão, os temas mais controversos: “Há uma pequena questão de fundo que emerge, aqui e ali, nas introduções escritas para este primeiro volume e que me parece ganhar em ser enfrentada. É que Frederico Lourenço afirma que as traduções feitas no contexto religioso são doutrinárias, apologéticas e reproduzem uma leitura pré-determinada, enquanto que a sua tem como intuito fazer “perceber, em português, exatamente o efeito que as palavras têm em grego”. Cada um tem direito à sua naiveté e às ilusões que quiser, mas entendamo-nos: não existe “a tradução” da Bíblia. Existem traduções, assim no plural, e estas têm qualidades e deficiências distintas, e devem ser acolhidas como dialogantes, longe de uma lógica primária de substituição. Que judaísmo e cristianismo tomam a Bíblia absolutamente a sério, Frederico Lourenço sabe-o bem, pois para esta sua tradução depende do trabalho de biblistas e exegetas judeus e cristãos que vê-se obrigado a citar a cada passo.”

O homem, lobo para os outros homens?

Um estudo publicado esta semana na revista científica Nature veio mostrar que Os humanos têm tendência para se matarem uns aos outros. Mas já se mataram mais. Realizado por investigadores espanhóis, este trabalho veio reacender uma polémica velha de séculos, se quisermos a polémica entre as visões de Thomas Hobbes e de Jean-Jacques Rousseau sobre a natureza humana, isto é, a questão de saber se a violência nos é inata ou é antes um fruto da sociedade e da cultura. Com este estudo Hobbes marcou pontos, mas lendo um pouco das reacções que já foram publicadas percebe-se que a polémica vai continuar.
Disso mesmo dão conta os textos do Observador, do El Pais e doGuardian, assim como os relatos da imprensa mais especializada. Por exemplo:

  • Em Was Civilization the Cure for Primordial Human Violence?, na Scientific American, escreve-se que “A new study challenges the popular claim that lethal violence declined after our ancestors settled down”, sendo que o autor se distancia dos comentários ao artigo que sublinharam sobretudo a natureza inata da violência noHomo sapiens.
  • Alguns desses comentários são citados pelo site site PhisOrg em  Nature or nurture: is violence in our genes?. Assim: “Commenting on the study, Mark Pagel of the University of Reading said it provided “good grounds for believing that we are intrinsically more violent than the average mammal.” But it also showed that humans are able to curtail such tendencies. “Rates of homicide in modern societies that have police forces, legal systems, prisons and strong cultural attitudes that reject violence are, at less than one in 10,000 deaths (or 0.01 percent) about 200 times lower than the authors’ predictions for our state of nature,” he wrote. “Hobbes has landed a serious blow on Rousseau, but not quite knocked him out.”
  • Mais informação pode ainda ser encontrada em Can Humans Outgrow From Hurting Each Other? Study Weighs In, na Nature World News.

Temas de debate: globalização e liberalismo


Há dois textos na imprensa de hoje que abordam o mal-estar das nossas sociedades com as consequências do comércio livre, da globalização e de vivermos em ambientes necessariamente competitivos. O primeiro deles é o notável editorial da The Economist desta semana, Why they’re wrong. É um texto que introduz um amplo dossier onde se faz a defesa do comércio livre já que “Globalisation’s critics say it benefits only the elite. In fact, a less open world would hurt the poor most of all”. É impossível resumir neste espaço a toda a argumentação da redação da The Economist, pelo que sublinho apenas uma passagem: aquela onde se começa por lembrar o indesmentível – “Exports of goods rose from 8% of world GDP in 1950 to almost 20% a half-century later. Export-led growth and foreign investment have dragged hundreds of millions out of poverty in China, and transformed economies from Ireland to South Korea.” – para depois sublinhar o que muito menos sabem ou reconhecem, mas que porventura é igualmente importante – “Protectionism, by contrast, hurts consumers and does little for workers. The worst-off benefit far more from trade than the rich. A study of 40 countries found that the richest consumers would lose 28% of their purchasing power if cross-border trade ended; but those in the bottom tenth would lose 63%.” De resto toda esta edição da revista é de ler e guardar.
Em contrapartida, partindo de uma realidade muito específica – a do seu país, a Espanha –, um dos raros assumidos liberais com coluna regular na imprensa portuguesa, Miguel Angel Belloso, tece algumas considerações no Diário de Notícias sobre A Espanha mais ingrata e mal-educada. São considerações bem heterodoxas: “Não há nenhum emprego precário. Todos podem ser a alavanca para prosperar, aprender e melhorar a qualificação, progredir com responsabilidade dentro da própria empresa, ou noutra, e obter um salário mais elevado. Nem eu nem o meu filho nos levantamos todas as manhãs dispostos a participar na dialética marxista entre capital e trabalho, mas sim dispostos a contribuir para o bem comum. (…) Estamos convencidos de que será bom para nós. Mas neste país de parasitas, acomodados e mesquinhos em que a esquerda e os sindicatos transformaram Espanha, é normal que a primeira coisa que um recém-contratado peça, apesar de ser solteiro e viver com os pais, seja conhecer a política de conciliação da empresa que o acaba de contratar.”

O que revela o retrato de dois políticos?

Nem sempre o jornalismo tem recursos para acompanhar durante largas semanas um político para dele fazer um retrato que vá além do lugar comum. Mas às vezes tem. As duas longas reportagens que a seguir recomendo permitem conhecer melhor dois políticos sobre os quais é mais fácil construir estereótipos do que retratos minimamente objectivos. Nestes dois casos acresce o interesse de serem dois políticos influentes (mesmo que pouco conhecidos), inteligentes e com ideias que tendem a ter má imprensa. Não sendo possível colocá-los no mesmo saco, é mesmo assim interessante vê-los através das lentes de dois órgãos de informação que não simpatizam com eles mas que, mesmo assim, procuram revelá-los como eles são, com um mínimo de equilíbrio e objectividade, mesmo percebendo-se que os jornalistas não concordam com as suas opiniões.
O primeiro retrato é o de Daniel Hannan, um conservador inglês que, sendo quase desconhecido em Portugal, foi, como escreve Sam Knight no Guardian, The man who brought you Brexit. Contrário ao rumo da União Europeia desde o tempo em que ainda estudava e discordou de Maastricht, Hannan defendeu o Brexit com uma linha argumentativa radicalmente distinta da utilizada pelo UKIP e por outros populistas (este debate entre ele e o trabalhista Peter Mendelson, promovido pelo Financial Times e de que é a imagem que ilustra este bloco, é uma delícia de inteligência e capacidade argumentativa de ambos os lados). Voltando ao Guardian, nele relata-se como este defensor do Brexit detestou alguns dos argumentos da campanha: “Hannan, naturally, cannot bear this kind of talk. When we first met, in Strasbourg, in early July, I asked him whether he really believed that the nation had voted for his free-market, internationalist version of Brexit. “Can you see how patronising that is?” he replied. “I mean, remainers are saying basically, ‘These thicko, working-class bigots weren’t listening to you. And let me now tell you – having ignored them – let me tell you what they really think.’” Instead, Hannan spoke of polls that showed that sovereignty was the primary concern of leave voters, rather than immigration, and of the economic shock that had not come. He admitted that because of the closeness of the vote, we were unlikely to become the “offshore, low-tax, global free-trading entrepôt” that he longs us to be. Hannan’s chosen Brexit would be rather soft, by current standards: something along Swiss lines, with opt-ins for various sectors to the regulations of the single market. He believes that compromise on free movement is possible, and that the Swiss government was making progress on the subject until talks were shut down before the British referendum.”
O segundo retrato é o de Frauke Petry, a líder do AfD, Alternativa para a Alemanha, o partido que tem vindo a causar as maiores dores de cabeça a Angela Merkel. Thomas Meaney, da New Yorker, escreve em The New Star Of Germany’s Far Right que estamos perante “a mother, a scientist, and the leader of the country’s most successful nationalist phenomenon since the Second World War”. Depois de a ter acompanhado um pouco por toda a Alemanha, o jornalista conclui assim a sua reportagem: “She thought that German politics was more weighed down by liberal pieties. “It’s so moral to allow these attacks to happen,” she said sarcastically. “It’s so moral to promise to people around the world that they can come to Germany and find paradise.” She found this outlook anti-democratic, disdainful of the views of ordinary Germans. “I myself am not morally good,” she said. “I’m just a human being. I try to stick to the rules. And I think there is a majority of Germans who agree with me. So, reducing the entire Enlightenment and all of the successes of European history down to this need to be morally good: I find that extremely dangerous. There’s this saying of Nietzsche”—she took out her phone and pulled up the quote almost instantly. “Here it is, in ‘Zarathustra’: ‘The good have always been the beginning of the end.’ 

E agora um pouco de humor

Para acabar esta newsletter, e esta semana, nada melhor do que um pouco de humor, neste caso uma conversa com um dos nossos melhores humoristas, o cartoonista (e meu bom amigo) Luís Afonso, que falou para o suplemento Weekend do Jornal de Negócios. Conheço poucas pessoas com mais capacidade de se rirem de si próprio, e por maioria de razão de fazer humor com este nosso país, pelo que não me surpreendi quando li o título da entrevista: Portugal está cheio de dádivas para fazer humor. Vejamos como ele explica porque é que Portugal continua a ser o melhor país para fazer humor: “Porque isto não funciona. Portugal não funciona. O que é que eu posso pedir mais de um país? Olha para esta solução governativa. Olha a riqueza disto. Veja-se a forma como o PSD e o CDS ficaram na oposição, não se conformaram e estão irritados, a fazer birra. (…) E o PS é uma dádiva. E, quando está em ponto de rebuçado, o PSD também é uma maravilha. Zangam-se todos uns com os outros e eu acho isso adorável. Depois, em termos de economia, temos este cruzamento directo e evidente entre o mundo dos negócios e mundo da política. Noutros países, saberão fazê-lo de uma forma mais disfarçada. E, no desporto, já viram a dádiva que é termos um gajo como o Jorge Jesus? É uma coisa única! Até tremo de pensar que o Jesus possa deixar de ser treinador ou uma coisa qualquer.”
É caso para dizer que nada mais tenho a acrescentar. E para aproveitar para ficar por aqui, desejando-vos um bom fim-de-semana, retemperador e com boas leituras.

 

Mais pessoas vão gostar da Macroscópio. Partilhe:

no Facebook no Twitter por e-mail

Leia as últimas

em observador.pt

Observador

©2016 Observador On Time, S.A.
Rua Luz Soriano, n. 67, Lisboa