Olá, este é o Curto do costume. Pois foi, em vez de bom dia dizemos olá. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (como diz o poeta). Não temos vontade de vos saudar com um bom dia devido ao adiantado da hora, para isso diríamos boa tarde, que seria o correto. Mas não, um sonoro olá é um mimo de fazer crescer a simpatia e a empatia. Note, até estamos a sorrir para si.Macron ganhou, Le Pen perdeu. Isso é uma boa notícia, uma grande notícia. Viva a França, vive la France. Era o que diziam as sondagens mas, já se sabe, as sondagens falham. E muito. Desta vez não falharam e a candidata da extrema-direita não ganhou mesmo. Mas acabou com 35% dos votos, qualquer coisa como 11 milhões de franceses que colocaram a cruz no quadradinho da Frente Nacional. E esta é a parte triste da história de uma eleição onde, pelo caminho, ficaram os partidos tradicionais e venceu um candidato que veio do centro político sem um partido por trás. Para recordar o filme da noite pode ver a cobertura, em direto, do Expresso online. Veja também como votaram os franceses no Le Monde e no The New York Times. Já o El País apresenta a noite eleitoral em fotografias. Reveja também o discurso de Emmanuel Macron no Público.
Pode-se discutir o percurso de Macron, as suas ideias, acusá-lo de ser liberal, ultraliberal, neo-liberal, ex-banqueiro, um homem da TINA (There Is No Alternative, não há alternativa), um futuro fantoche nas mãos de Merkel. Tudo pode ser dito. Não interessa sequer se faz sentido, se é justo ou se é acertado. Mas é legítimo. Pelo menos numa França que não é dirigida por Marine Le Pen e pela sua Frente Nacional. E essa é a grande vitória da noite.
A reação de vários líderes mundiais foi de satisfação. O Presidente da República português enviou uma mensagem de felicitações a Macron onde sublinhou a “vitória da Democracia e do Estado de Direito” e “dos mais elementares valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. António Costa, através do Twitter, felicitou Macron por aquilo que considerou uma “boa notícia para a França, para a Europa e para Portugal”. Também os partidos políticos portugueses reagiram.
As mensagens vieram de todo o Mundo. A Primeira-ministra britânica, Theresa May, foi uma das primeiras a fazê-lo. O The Guardian faz o resumo das felicitações. Donald Trump tweetou e felicitou Macron, mostrando desejo de poder trabalhar com ele.
Passada esta segunda volta das presidenciais começam as interrogações sobre o futuro. E a primeira de todas consiste em saber como irá este voto em Macron traduzir-se em termos legislativos. Já Marine Le Pen, no seu discurso da noite, anunciou a criação de uma nova força política. A primeira volta das legislativas está agendada para 11 de Junho.
Uma das surpresas da noite foi o sucesso do ‘partido’ dos brancos e nulos que chegou aos 12%. Um valor histórico, lembrou o Le Monde, que analisou o comportamento destes votos nas últimas décadas. O que vai acontecer agora é uma das principais questões colocadas em toda a imprensa nacional e internacional. Pode ler, por cá, no Expresso, no Público, no i, no Observador ou no DN. E lá fora, por exemplo, na edição europeia do Politico, no Financial Times, no The Wall Street Journal ou na revista The Atlantic.
Na opinião, a eleição esteve também naturalmente em destaque. Algumas sugestões apenas: Tony Barber no FT fala sobre a “vitória incompleta” de Macron; Clara Ferreira Alves no Expresso pede que se celebre “com champanhe”; Alexis Brezet (diretor do Le Figaro) quer os olhos postos nas legislativas; Rui Tavares no Público avisa que pode ser uma última oportunidade para a Europa.
Sobre o programa que Macron poderá aplicar há já muitos artigos publicados. O Le Monde, por exemplo, apresenta as principais linhas do seu programa e também faz uma shortlist daquelas que poderão ser mais difíceis de concretizar. Como é o caso da proibição de telemóveis em escolas, da tributação das multinacionais pelos lucros gerados em França ou da introdução do método proporcional no apuramento de deputados nas legislativas. O Público deu destaque a um trabalho da Reuters sobre o programa centrista do mais novo presidente francês de sempre. Já o francês Les Echos elege as 10 principais medidas.
Além do programa interessa também saber que será o primeiro-ministro de Macron. O Le Figaro deixa alguns palpites. Um dos potenciais ministros das Finanças é Jean Pisani-Ferry, economista, ex-diretor do influente think tank belga Bruegel e que é um dos conselheiros económicos do presidente eleito. Para se ter uma ideia das suas ideias políticas pode-se dar um saltinho ao site académico Vox que reuniu precisamente alguns dos seus escritos nos últimos anos. Bem como de Phillipe Martin, outro dos assessores económicos de Macron. Pisani-Ferry defende reformas na Europa, como a criação de um Fundo Monetário Europeu ou algum tipo de mutualização de dívida, mas quer regras orçamentais apertadas e não propõe grandes ruturas a nível europeu.
As eleições francesas estão na primeira página dos jornais portugueses: “França marcha com Macron e dá esperança à Europa” (Público); “Alívio”(DN); “Macron promete restaurar os laços entre Europa e cidadãos”(JN); “Macron derrota Le Pen. Europa respira de alívio”(i); “Emmanuel Macron, Monsieur Le President” (Jornal de Negócios). E também dos internacionais, como se pode ver na ronda feito pelo britânico The Guardian.
Cá dentro
Por cá, ontem foi dia de futebol e com algumas emoções. À noite, enquanto o mundo – os benfiquistas talvez não tanto – acompanhavam os primeiros resultados das eleições francesas, o Benfica vencia o Rio Ave com um golo solitário de Jiménez a 15 minutos do fim (confira todos os detalhes no site do Record). Está agora a uma vitória do título. Mas Rui Vitória não quer embarcar em euforias antes do tempo. A propósito, leia também a crónica do jogo do Azar do Kralj na Tribuna do Expresso. Onde também não deve perder, já agora, a crónica do jogo do Sporting na manhã de ontem e que terminou com uma derrota por 1-3 com o Belenenses. Uma manhã que não caiu bem a todos. Faz lembrar a história de um outro atleta (na altura do Sporting, agora do Benfica): “Já cheguei à conclusão que, de manhã, só estou bem é na caminha.” Lembra-se? Se não se lembra reveja aqui (ao segundo 26).
Domingo à noite é dia de comentário de Marques Mendes na SIC e, como é habitual, o comentador trouxe algumas novidades. Começou por assegurar – tal como António Costa já tinha feito na semana passada – que Portugal vai mesmo sair do Procedimento por Défice Excessivo no final deste mês. Marques Mendes disse também que o PS convidou, sem sucesso, Júlio Magalhães, diretor do Porto Canal, para se candidatar à Câmara do Porto. O partido já desmentiu.
Outras notícias: o PSD quer que governo lance campanha de vacinação; o Bloco de Esquerda insiste quea revisão dos escalões de IRS deve avançar; Salgado procurou ajuda no Dubai contra OPA da PT; Pablo Carreño Busta venceu o Estoril Open.
Machetes dos jornais: “Investigadores e docente do superior também vão poder entrar no Estado” (Público); “Combustíveis simples detém 70% do mercado”(DN); “Fronteiras: Combater crime só no horário de expediente”(JN); “19 milhões por dia em combustível” (Correio da Manhã); “”(i); “Salgado procurou no Dubai aliados contra a OPA” (Jornal de Negócios); “Cheira a festa”(Recorde); “Está quase”(A Bola); “Jiménez acende a Luz”(Jogo)
Lá fora
Num dia marcado pelas eleições presidenciais francesas, houve ainda assim outras notícias. Na Venezuela, o político da oposição Leopoldo Lopéz foi finalmente visitado na prisão depois de vários dias sem contactos e até com rumores sobre a sua morte. A situação no país continua a ferro e fogo. A sua mulher diz que está “vivo e de boa saúde”.
Dos EUA chegam duas notícias de temas completamente desligados ambas no Financial Times: o banco Goldman Sachs é o maior beneficiado com o prazo alargado para cumprir a regra Volcker que limita as operações arriscadas que os bancos podem fazer; o número de estudantes estrangeiros nas escolas de negócios está a cair devido às maiores restrições à entrada no país.
O partido de Angela Merkel derrotou os sociais-democratas do SPD nas eleições regionais do estado alemão Schleswig-Holstein. Em Espanha, o El Pais conta como a política externa está a complicar a vida ao Podemos.
FRASES
“Meus amigos, vou servir-vos com humildade, com força, em nome da nossa divisa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Vou servir-vos com amor. Viva a República! Viva a França!”, Emmanuel Macron, Presidente eleito francês
“Apelo a todos os patriotas a juntarem-se a nós para participar no combate político decisivo que começa esta noite. Comprometo-me a apostar numa transformação do nosso movimento com o intuito de constituir uma nova força política”, Marine Le Pen, Líder da Frente Nacional e derrotada na eleição de ontem
O QUE ANDO A LER
Em 2012, Eike Batista era o homem mais rico do Brazil e um dos dez mais ricos do planeta. Tinha uma fortuna avaliada em 30 mil milhões de dólares (€27 mil milhões). Agora Eike, como é conhecido e tratado no Brazil, está em prisão domiciliária, acusado de crimes como corrupção e lavagem de dinheiro. E as suas empresas estão falidas desde 2014. Esteve preso da prisão de Bangu 9 e saiu no final de abril. Mas tem um prazo curto para pagar uma fiança de 52 milhões de reais (€15 milhões) – que Eike alega não ter – senão poderá regressar a cadeia.
“Brazilionaires”, publicado ano passado por Alex Cuadros, é uma visita à história dos milionários brasileiros num país onde a pobreza vive paredes meias com as mais descaradas demonstrações de riqueza extrema. Cuadros é jornalista e durante anos trabalhou para a agência Bloomberg em São Paulo.
Ao longo de quase 300 páginas conta alguns episódios – como o atropelamento de um ciclista pobre pelo filho de Eike num McLaren SLR (que valia mais de um milhão de euros) e a forma como as autoridades foram compreensivas com ele – mas descreve também o ciclo de rápida prosperidade do Brasil. Melhorou a vida de muita gente mas não foi suficiente para acabar com todos os problemas. Longe disso. E, pior, acabou.
Como Cuadros bem lembra, a revista The Economist fez capa no final de 2009 com o Cristo Redentor a levantar voo e o título “Brazil takes off” (“O Brasil levanta voo”). Nesse ano, o ano da Grande Recessão global, o PIB brasileiro caiu. Mas em 2010 voltou a crescer e logo a um ritmo de 7,5%. O pior veio depois. A economia entrou no vermelho em 2015 e nos dois últimos anos já acumulou uma queda superior a 7%.
E depois há toda a corrupção, os escândalos e os políticos envolvidos. A história dos bilionários brasileiros é a história recente do Brasil, para o bem e para o mal. E Alex Cuadros, apesar de americano, fala português e pontua o seu texto com palavras e expressões brasileiras. Para tentar captar o espírito do nosso país irmão.
A informação vai continuar aqui, em tempo real, no Expresso Online e, como sempre, teremos os principais temas do dia no Expresso Diário às 18 horas. Tenha um excelente dia.