Opinião – Até quando sobreviverá Portugal na bandeira de Ceuta?

Opinião – Até quando sobreviverá Portugal na bandeira de Ceuta?

01/08/2026 0 Por Carlos Joaquim
 Ceuta voltou a ocupar as manchetes. A crise migratória, a pressão sobre uma das fronteiras externas da União Europeia e as tensões diplomáticas colocaram novamente aquela pequena cidade africana no centro da atualidade. Contudo, entre imagens de vedações, patrulhas e embarcações, há um pormenor que passa despercebido à esmagadora maioria dos portugueses. Sobre os edifícios oficiais de Ceuta continua a tremular uma bandeira que guarda, há mais de seis séculos, uma das mais extraordinárias memórias da História de Portugal.
Talvez muitos se surpreendam ao descobrir que aquela bandeira conserva ainda o escudo português e as cores da antiga bandeira de Lisboa. O preto e o branco que hoje identificam Ceuta não foram escolhidos por acaso. Recordam a bandeira da cidade de Lisboa, levada pela grande armada de D. João I que, em agosto de 1415, partiu do Tejo rumo ao Norte de África para conquistar a cidade. A memória dessa expedição ficou perpetuada na própria bandeira de Ceuta, como se o tempo tivesse decidido conservar um testemunho silencioso do início da expansão portuguesa.
Foi dali que começou uma das maiores aventuras da História da Humanidade.
Quando D. João I decidiu atacar Ceuta, não estava apenas a planear uma campanha militar. Estava a abrir uma nova etapa na História de Portugal. Acompanhavam-no os infantes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, jovens príncipes que encontrariam naquela expedição uma experiência decisiva para o futuro do reino. O cronista Gomes Eanes de Zurara descreve o entusiasmo das tropas, a coragem dos combatentes e a rapidez com que a cidade caiu nas mãos portuguesas. Aqueles homens dificilmente imaginariam que estavam a escrever o primeiro capítulo de uma epopeia que levaria Portugal aos quatro cantos do mundo.
Ceuta transformou-se na primeira grande conquista ultramarina portuguesa. Muito antes de Vasco da Gama chegar à Índia, de Cabral avistar o Brasil ou das naus portuguesas alcançarem o Japão, foi naquela cidade africana que Portugal começou a afirmar uma vocação marítima e universal sem paralelo na Europa do seu tempo.
Mas essa conquista teve um preço elevadíssimo.
Durante mais de dois séculos, Ceuta exigiu homens, navios, armas, alimentos e recursos financeiros. Manter uma praça portuguesa em território africano implicava um esforço permanente, quase sempre esquecido quando se fala da expansão marítima. Gerações de portugueses combateram nas suas muralhas, perderam familiares e viveram convencidas de que defender Ceuta era defender o próprio reino.
Nenhuma figura simboliza melhor esse sacrifício do que o Infante D. Fernando. Capturado após a expedição a Tânger, permaneceu durante anos em cativeiro porque Portugal recusou entregar Ceuta em troca da sua libertação. O reino preferiu perder um príncipe a perder a cidade conquistada por D. João I. O Infante Santo morreria longe da pátria, tornando-se um dos maiores símbolos de fidelidade e abnegação da História portuguesa.
Décadas mais tarde, Luís de Camões transformaria em poesia a grande epopeia nacional. Embora Os Lusíadas celebrem sobretudo a viagem de Vasco da Gama, a verdade é que essa epopeia começou muito antes. Começou em Ceuta. Sem a conquista de 1415 dificilmente se compreenderia o impulso que conduziu Portugal ao longo da costa africana, ao cabo da Boa Esperança, ao Índico, ao Brasil e ao Extremo Oriente. Ceuta foi o primeiro degrau da aventura que Camões haveria de eternizar.
Também D. Sebastião encontraria em terras do Norte de África o seu destino trágico. Em Alcácer Quibir, não muito longe de Ceuta, desapareceu o jovem rei cuja morte mergulhou Portugal numa das maiores crises da sua História. A partir desse momento, o sonho africano iniciado por D. João I conhecia o seu episódio mais dramático. A perda da independência em 1580 acabaria por alterar profundamente o destino de Ceuta.
Quando Portugal recuperou a independência em 1640, a cidade decidiu permanecer fiel à Coroa espanhola. A soberania portuguesa terminava, mas a memória não. O escudo português permaneceu na bandeira e o preto e o branco da antiga bandeira de Lisboa continuaram a recordar a armada que atravessou o estreito de Gibraltar em 1415. É raro encontrar na História um símbolo oficial que tenha sobrevivido durante mais de seis séculos à mudança de soberania.
Hoje, quando as câmaras de televisão mostram Ceuta como um dos principais pontos de entrada de migrantes em território europeu, quase ninguém repara que aquela bandeira continua a contar uma história muito diferente. Conta a história de um pequeno reino que ousou atravessar o mar, iniciar a expansão ultramarina e mudar para sempre o curso da História mundial. Conta a história de reis, infantes, marinheiros, soldados, cronistas e poetas que fizeram daquela cidade o primeiro capítulo da extraordinária aventura portuguesa.
Até quando sobreviverá Portugal na bandeira de Ceuta? Ninguém o sabe. A História ensina-nos que nenhum símbolo é eterno. As bandeiras mudam, os escudos transformam-se e as identidades evoluem ao longo dos séculos. Mas, enquanto o escudo português permanecer ao centro daquela bandeira e enquanto o preto e o branco da antiga Lisboa continuarem a desafiar o tempo, Ceuta recordará ao mundo que foi ali, nas muralhas daquela cidade africana, que Portugal iniciou uma das mais extraordinárias epopeias da História da Humanidade. E há memórias que, mesmo quando deixam de pertencer a um país, passam definitivamente a pertencer à História.
*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor