Marinha Grande | DISCURSO DO PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA MUNICIPAL NAS COMEMORAÇÕES DO 52.º ANIVERSÁRIO DO 25 DE ABRIL

Marinha Grande | DISCURSO DO PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA MUNICIPAL NAS COMEMORAÇÕES DO 52.º ANIVERSÁRIO DO 25 DE ABRIL

26/04/2026 0 Por Carlos Joaquim
Senhora Presidente da Assembleia Municipal, Senhor Presidente da Câmara, Senhoras e Senhores Deputados, Caras e Caros Munícipes,
 Hoje celebramos Abril. E quando falamos no 25 de Abril de 1974, não falamos apenas de uma data no calendário. Falamos do dia que nos trouxe a democracia, o voto livre, a liberdade de expressão, os direitos laborais, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde.
Falamos do dia que nos trouxe a possibilidade de discordar sem medo, de participar sem censura, de sonhar sem pedir licença, de viver em liberdade.
Mas é precisamente por vivermos em liberdade que não podemos cair na ilusão de que ela está garantida.

Vivemos tempos exigentes. Tempos em que o espaço público é cada vez mais marcado por discursos de ódio, por simplificações perigosas e por uma crescente normalização do extremismo.  Há uma tentação, cada vez mais visível, de dividir em vez de unir, de gritar em vez de dialogar, de apontar culpados em vez de construir soluções.
E é aqui que o 25 de Abril ganha uma nova força.
Porque Abril ensinou-nos exatamente o contrário: 
Que a liberdade não se constrói contra os outros, constrói-se com os outros.
Que a democracia não vive do medo, vive da participação.
Que o futuro não se impõe —constrói-se, em conjunto.
Defender Abril, hoje, é recusar a normalização do ódio. É recusar que o racismo, a xenofobia, o machismo ou a homofobia sejam tratados como opiniões banais. É recusar que a democracia seja usada para destruir a própria democracia.
Defender Abril é ter a coragem de dizer que não aceitamos retrocessos civilizacionais.
Mas Abril também nos convoca a olhar para quem não o viveu e quem o sente como uma data que só aparece nos livros de História: os jovens.
Para muitos de nós, jovens, a liberdade parece algo natural. Nascemos em democracia. Crescemos a votar em associações de estudantes, a expressar opiniões nas redes sociais, a contestar, a criar, a participar. Mas apesar de tudo isto, seria um erro pensar que a liberdade dos jovens está plenamente garantida.
Que liberdade tem um jovem que trabalha e não consegue sair de casa dos pais?
Que liberdade tem quem estuda anos e anos e só encontra precariedade?
Que liberdade tem quem sente que o esforço não chega para construir um futuro digno?

Somos a geração a quem muitas vezes é dito que temos de esperar- esperar por melhores condições, esperar por estabilidade, esperar por oportunidades. Mas esperar até quando?
Quando um jovem não consegue sair de casa dos pais, quando não encontra emprego digno, quando sente que o seu futuro depende de sair da sua terra — então a liberdade fica incompleta.
E é por isso que temos de ter a coragem de dizer: a liberdade não é apenas um direito formal. É a possibilidade real de viver com dignidade.
E se falamos de liberdade, temos também de falar das mulheres. Porque Abril abriu portas, mas não resolveu tudo. Tema que muitos consideram como setorial, a liberdade das mulheres, não é nada mais nada menos que uma medida da qualidade da nossa democracia.
Uma sociedade só  verdadeiramente livre quando nenhuma mulher tem medo de andar na rua.
Quando nenhuma mulher é penalizada por ser mãe.
Quando nenhuma rapariga cresce a achar que vale menos do que um rapaz.
E por isso, continuar Abril é também continuar esta luta, a luta pela igualdade de género.
Mas hoje, nesta Assembleia, não posso deixar de falar da nossa terra e daquilo que nos define enquanto comunidade.
Há poucos meses, a tempestade Kristin atingiu o nosso concelho. Trouxe dificuldades, preocupação, estragos, incertezas… Testou infraestruturas, serviços e famílias. Testou a nossa capacidade de resposta.
Mas também revelou o melhor de nós.
Vimos vizinhos a ajudar vizinhos. Vimos associações, autarquias, forças de proteção civil e cidadãos a responderem em conjunto, com sentido de responsabilidade e solidariedade. Vimos uma comunidade que, perante a adversidade, escolheu não virar costas.
Essa capacidade de nos unirmos, de cuidarmos uns dos outros, de percebermos que somos mais fortes quando caminhamos juntos — é talvez uma das expressões mais concretas da liberdade que conquistámos.
Num tempo em que tantas vozes tentam dividir, etiquetar e colocar uns contra os outros, a resposta da população da Marinha Grande foi simples e poderosa: cooperação.
É esta a melhor resposta aos pregadores do ódio. Não um grito mais alto. Não uma raiva simétrica. Mas a prova concreta de que a solidariedade funciona e de que a união vence.
Camaradas, Senhoras e Senhores,
Celebrar o 25 de Abril não é apenas recordar o passado. É fazer perguntas ao presente. Que sociedade queremos ser?
Que futuro estamos a construir?
E que papel estamos dispostos a assumir?
A resposta não pode ser o conformismo.
Não pode ser a indiferença.
Não pode ser o silêncio.
A resposta tem de ser participação.
Tem de ser compromisso.
Tem de ser coragem.
A política só faz sentido se for útil às pessoas. E é isso que nos deve guiar: transformar valores em ação, transformar palavras em resultados.
Porque Abril não é um ponto de chegada.
É um ponto de partida.
E cabe-nos a nós — a todos nós — garantir que essa partida continua a fazer sentido para as gerações de hoje e de amanhã.
Que a liberdade não se esvazie.
Que a democracia não se fragilize.
Que a esperança não se perca.
Porque, no fim, é disso que falamos quando falamos de Abril: da capacidade de acreditar que podemos sempre fazer melhor.
E essa responsabilidade é de todos nós!
Viva o 25 de Abril!
Viva a Marinha Grande!
Viva Portugal!