Premium: O laboratório militar já produz 50 medicamentos que salvam vidas mas que não interessam à indústria
Fabricam medicamentos para três pessoas como para 20 mil. O laboratório militar produz cada vez mais fármacos que não compensam financeiramente à indústria. Dá resposta à rutura de stocks e é responsável pela reserva nacional de medicamentos.
Há três crianças, em Portugal, diagnosticadas com a doença neurológica de Menkes. Uma síndrome genética muito rara, que fragiliza os músculos e o cérebro, impedindo um desenvolvimento normal. A cura não existe, mas há uma forma de ganhar tempo: um medicamento que prolonga a vida para lá do prognóstico fatal do primeiro ano. Chama-se histidina de cobre e só o Laboratório Militar de Produtos Químicos e Farmacêuticos o produz e leva até aos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). O fármaco não tem mais-valia comercial e, por isso, não compensa a nenhuma farmacêutica empenhar-se em dar mais tempo de vida às três crianças que têm esta doença. É um dos cerca de 50 medicamentos abandonados pela indústria que o laboratório garante. No final de 2018, eram 44 fármacos nestas circunstâncias, segundo informações prestadas à Associação de Oficiais das Forças Armadas.
Produzem analgésicos, anti-inflamatórios, expetorantes, que não se encontrem comercializados ou autorizados em Portugal, mas que são imprescindíveis na rede hospitalar do SNS.”Vamos tentando manter alguma independência, através do Exército, no acesso aos mediamentos”, diz o tenente-coronel João Carmo, subdiretor do laboratório. “O nosso foco é o que não existe no mercado nacional. Colmatamos as falhas de medicamentos que não são de todo produzidos para as doenças raras e as ruturas de fornecimento no mercado. Personalizamos muito a nossa medicação, consoante a necessidade do doente”, explica a major Inês Martins, chefe do departamento de controlo de produção do laboratório. Todos os lotes de fármacos têm uma quantidade diferente, ditada pela necessidade. Se dão forma à receita prescrita para um só doente também respondem com vinte mil saquetas de metadona (o narcótico usado no tratamento da toxicodependência) para o programa do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD). O laboratório é o único produtor e distribuidor de metadona em Portugal, por apresentar condições de segurança especiais durante o processo de produção. No ano passado, foram produzidas cerca de três milhões de saquetas para 14 mil tratamentos.