Crónica – Porque razão Portugal deve comemorar o ano de 2028
Portugal é uma das mais antigas nações da Europa, mas continua a viver com uma curiosa indefinição quando se trata de identificar o seu verdadeiro momento fundador. Entre tratados diplomáticos, reconhecimentos pontifícios e proclamações régias, dilui-se frequentemente o essencial: o instante em que nasce um poder político autónomo, consciente de si e capaz de se impor no território. Esse instante tem data, lugar e significado claros. O dia 24 de junho de 1128 deve ser entendido como o Dia Um de Portugal, e o ano de 2028 como o momento simbólico e histórico adequado para o país assumir, com maturidade, essa evidência.
Nesse dia, no campo de São Mamede, junto a Guimarães, não se travou apenas uma batalha entre facções familiares ou interesses senhoriais. O que ali se decidiu foi a rutura prática e irreversível com a tutela política do reino de Leão sobre o espaço portucalense. A vitória de Afonso Henriques sobre as forças que apoiavam a sua mãe, D. Teresa, e os interesses galegos que a rodeavam, significou a tomada efetiva do poder por uma liderança nascida e enraizada no território. A partir desse momento, o Condado Portucalense deixou de ser governado por delegação externa e passou a ser conduzido por um projeto político próprio, com continuidade, coerência e ambição.
A História não se faz apenas de reconhecimentos jurídicos formais. Faz-se, antes de mais, de factos consumados. O que distingue um território subordinado de um território em vias de se tornar Estado é a capacidade de decidir por si, de se defender e de impor autoridade. Após 1128, Afonso Henriques governa sem tutela, exerce justiça, lidera a guerra, distribui tenências e constrói alianças. Nada disto seria possível sem o acontecimento fundador de São Mamede. Zamora, em 1143, não cria Portugal; limita-se a reconhecer uma realidade já existente. A bula papal de 1179 não funda o reino; legitima-o no plano espiritual europeu. Ambos são marcos importantes, mas secundários face ao momento em que o poder nasce de facto.
Não é por acaso que José Mattoso, um dos mais rigorosos e influentes historiadores da Idade Média portuguesa, identificou a Batalha de São Mamede como um ponto de viragem decisivo na formação de Portugal, referindo-se a esse dia como “a primeira tarde portuguesa”. A expressão, carregada de sentido histórico e simbólico, sublinha precisamente isso: não o fim do processo, mas o seu início consciente, o momento em que uma comunidade política começa a existir como tal, distinta e autónoma, ainda antes de qualquer reconhecimento externo.
Celebrar o 24 de junho de 1128 como o início de Portugal não significa ignorar a complexidade do processo histórico. Pelo contrário, significa compreendê-lo com rigor. As nações não nascem por decreto, nascem quando uma comunidade política se afirma no terreno. É isso que acontece em São Mamede. A partir daí, a História portuguesa ganha direção própria, deixa de ser um apêndice da política leonesa e passa a escrever-se a partir do Norte do atual território nacional, com Guimarães como centro simbólico e político desse arranque.
O ano de 2028, ao assinalar os 900 anos desse acontecimento, oferece a Portugal uma oportunidade rara: a de celebrar a sua origem com profundidade histórica e sentido cívico. Não se trata de criar uma nova data artificial, mas de recuperar uma memória fundadora que sempre esteve presente na historiografia séria, embora nem sempre assumida no plano simbólico nacional. Ao fazê-lo, o país reforça a sua consciência histórica, clarifica a sua narrativa de origem e presta homenagem a um momento decisivo em que o destino coletivo começou a ser traçado com autonomia.
Portugal não começa quando é reconhecido pelos outros; começa quando se reconhece a si próprio como entidade política distinta. Esse reconhecimento nasce no campo de São Mamede, num dia de verão de 1128. Por isso, comemorar 2028 não é um exercício de nostalgia, mas um ato de lucidez histórica. É afirmar que a identidade nacional assenta em factos, não em convenções tardias. É assumir, com maturidade, que Portugal tem um Dia Um e que esse dia merece ser lembrado, celebrado e compreendido como o verdadeiro início da sua História enquanto nação.
*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

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