CASA MUSEU JOÃO DE DEUS ACOLHE APRESENTAÇÃO DO LIVRO “O ADVENTO DO QUINTO IMPÉRIO”, DE ANTÓNIO DE ABREU FREIRE

CASA MUSEU JOÃO DE DEUS ACOLHE APRESENTAÇÃO DO LIVRO “O ADVENTO DO QUINTO IMPÉRIO”, DE ANTÓNIO DE ABREU FREIRE

14/05/2026 0 Por Carlos Joaquim

 A Casa Museu João de Deus recebe, no próximo dia 14 de maio, pelas 18h00, a apresentação do livro “O Advento do Quinto Império”, da autoria de António de Abreu Freire.

Natural do Bunheiro, concelho da Murtosa, António de Abreu Freire possui um percurso académico singular, marcado pela conjugação entre as Ciências Humanas — área em que se doutorou em Paris — e a Física, área na qual concluiu igualmente um doutoramento no Canadá. Esta formação multidisciplinar reflete-se na diversidade da sua obra, que abrange áreas como a História, a Antropologia, a divulgação científica e a literatura de cordel.

No seu mais recente livro, “O Advento do Quinto Império”, o autor revisita um dos temas mais emblemáticos e complexos da cultura portuguesa: o mito do Quinto Império. A obra propõe uma reflexão aprofundada sobre o messianismo português, cuja origem remonta às profecias bíblicas do Livro de Daniel e que ganhou expressão maior através do pensamento do Padre António Vieira, no século XVII.

Reconhecido especialista na vida e obra de Vieira, António de Abreu Freire analisa a evolução desta ideia ao longo do tempo, desde a visão de um império espiritual e religioso liderado por Portugal até à sua transformação, na modernidade, num ideal de império cultural, de paz e de língua.

Mais do que uma análise histórica e filosófica, o livro convida o leitor a refletir sobre o destino de Portugal e sobre a pertinência de um pensamento messiânico num contexto global contemporâneo.

A sessão terá lugar na Casa Museu João de Deus, em São Bartolomeu de Messines, e contará com entrada livre.

+ sobre “O Advento do Quinto Império” Pelos 400 anos da canonização da Rainha Santa Isabel:

A utopia da Era do Espírito Santo, criada no século XII pelo monge calabrês Joaquim de Fiore, era uma antevisão do futuro da Igreja, o desejo de uma renovação da comunidade cristã: um projeto ambicioso para a civilização ocidental e latina, mas que não contemplava as outras civilizações, não se estendia ao resto da humanidade. O Quinto Império do padre António Vieira é uma visão profética do futuro da humanidade inteira, a maior utopia jamais saída da mente de um génio e ela é portuguesa. Patriótica até à loucura, certamente, mas uma visão moderna da sociedade e da história humana, inspirada nas virtudes de um povo cristão: uma “feira universal” de fraternidade, onde “ninguém fica indiferente a ninguém, nem mesmo à ideia de um Criador”.

A ideia de uma cidadania mundial tinha surgido no começo do século Vº da nossa era na mente do berbere Agostinho Aurélio quando o Império Romano se fragmentava, invadido por povos bárbaros que criavam dentro das suas fronteiras novos espaços rebeldes de liberdade. Como no tempo d’A Cidade de Deus, confrontamo-nos hoje com uma realidade nova e emergente, instável e dramática, a de uma civilização em declínio que provoca um sentimento de compaixão pelos excluídos, com uma variante: o bispo de Hipona ignorava a dimensão do mundo e a diversidade das civilizações que o pisavam. As ideias reformadoras de Joaquim de Fiore encontraram acolhimento junto dos soberanos mais poderosos da Europa medieval e chegaram a Portugal com Isabel de Aragão, a esposa de D. Dinis que criou, após a extinção da Ordem dos Templários (1312), um extraordinário movimento popular para continuar e alargar a prática das Obras de Misericórdia: as Irmandades do Espírito Santo, a primeira ação social comunitária e solidária de combate à exclusão, cujos rituais já se praticavam em Alenquer em 1320. A Ordem da Milícia de Cristo, criada por D. Dinis um ano antes, em 1319, dava continuidade e absorvia a função militar e administrativa dos Cavaleiros do Templo; as Irmandades recriaram os rituais da compaixão e da justiça como prenúncios proféticos de um futuro de paz e de felicidade – qual Jerusalém Celeste do Apocalipse.

A dinastia de Aviz endossou o projeto fabuloso de um grande Império cristão e universal, onde a nova Ordem de Cristo desempenharia um papel fundamental. D. Afonso V encomendou ao erudito veneziano Fra Mauro um mapa-mundi; foi-lhe entregue em 1459 e mostrava que, pelos oceanos, se podiam contactar todos os povos de todos os climas da Terra. O papa Nicolau V concedera ao rei português autorização para conquistar uma boa parcela do mundo e submeter todos os infiéis dessas terras à escravidão (bulas Dum Diversas (1452) e Romanus Pontifex (1455). O Império sonhado não se realizou de maneira duradoura, mas foi um dos maiores desafios da humanidade: tão rápido e violento quanto sublime, o projeto pareceu eterno enquanto durou. Como na saga de Ourique, onde se enraizou a Utopia portuguesa do Império, o Divino todo-poderoso não esmagou com palavras nem gestos o poderio dos inimigos; antes exigiu dos crentes o combate para assegurar a vitória e para que acontecesse o milagre. Na hora das lutas, cada qual fez-se predador, as mãos sujas de sangue, para sair vivo da peleja e com o seu quinhão de saque. O Império – Deus o quis – far-se-ia com armas e valores, e só com vitórias e virtudes ressuscitaria. Era necessário reconquistar Jerusalém! Graças a tamanho e tão ousado desafio, contam-se hoje uns 250 milhões de criaturas que falam todos os dias a língua mátria portuguesa.

No tempo da utopia do Vº Império de Vieira, no século XVII, já não restava nenhum pedaço de mundo nem nenhuma civilização por encontrar, mas o sonho imperial português tinha-se desfeito. No nosso tempo, a quantidade de humanos excluídos da cidadania é assustadora e ninguém mais ignora a dimensão do planeta e a diversidade das criaturas que o povoam. Arquitetos, obreiros e artesãos do futuro, enfrentam desafios inéditos, jamais imaginados, para alcançar uma nova era de paz, de liberdade e de fraternidade, qual novo Império do Divino, na versão encantadora e quase romântica da diáspora portuguesa que preserva os rituais do movimento criado em Portugal há mais de 700 anos pela Rainha Santa Isabel: o advento de um mundo novo.

Este livro é também uma parábola poética sobre um dos temas mais emblemáticos e complexos da cultura portuguesa: uma abordagem liberal do messianismo português, cuja origem remota se encontra numa narrativa bíblica do livro do profeta Daniel. Abreu Freire, reconhecido especialista na vida e obra do padre António Vieira, explica como esta utopia, inicialmente um projeto de expansão religiosa e espiritual liderado pela coroa portuguesa, evoluiu ao longo dos séculos, desde o tempo da Rainha Santa Isabel até aos nossos dias, exibindo como símbolos pombas, espadas e coroas, monges e cavaleiros. Uma reflexão sobre o destino de Portugal, questionando a relevância da ideia persistente de um futuro messiânico num mundo globalizado.

A Rainha Santa Isabel foi canonizada há 400 anos, a 24 de junho de 1625. “Assim, este livro é mais do que um tributo a uma Rainha: é um hino à solidariedade, um testemunho de fé na humanidade e um convite à ação”.  São 140 páginas de uma escrita que revela muito mais para além daquilo que conta. Não tinha só rosas, no avental de Isabel!