Eu, Psicóloga: Quando a exigência do sucesso me torna um fracassado

31/08/2017 0 Por Carlos Joaquim
Vou começar esse texto como os dependentes químicos começam suas sessões:
  • Sou Daniel, tenho 36 anos e quando eu o conheci eu não me lembro, mas eu me lembro de seus efeitos, começa com uma insatisfação, quase se pode dizer que é natural, mas ela te motiva e te impulsiona por uma moralidade onde parece ser normal. Ela te faz busca cada vez mais resultados, quando se acorda e ela não está do seu lado, há uma necessidade de buscá-la, onde ela estiver parece que você irá. Lembro de abrir os jornais e ela estava lá, muitas vezes nos comercias de televisão e acompanhada de alguns artistas, todos sorrindo pois estavam com ela. Gostaria de revelar essa companhia que nos motiva e nos torna dependente, é a ideia contemporânea em que “tudo vai dar certo”.
Tudo vai dar certo é uma forma de pensar que cada vez mais vem aumentando em nossas vidas, queremos controlar os riscos, não podemos errar e ficar triste, pois de alguma forma acreditamos que conseguimos controlar os resultados do futuro com ações do presente e por isso nos mobilizamos a não mais sofrer.
Sofrer tem se tornado o resultado de um fracasso pessoal, não admitimos sofrer, pois isso seria como admitir a incapacidade em nossas vidas e como não podemos nos admitir incapazes então tomamos a decisão de não tentar e por fim tememos os riscos.
Tem um escritor que adoro, “Zygmunt Bauman” que escreve em seu livro “Amor Líquido” uma referência que gostaria de apresentar a vocês, claro que não gostaria de encerrar o assunto apenas nesse texto quero e vou escrever mais sobre ele, mas ele faz uma metáfora com o líquido e sua habilidade de se transformar em todas as formas, sua capacidade de mudanças e assim não possuir forma própria, existem condições positivas e negativas em estar no estado  líquido.
No capítulo. Apaixonar-se e desapaixonar-se, ele nos relata a uma condição de vida onde os relacionamentos são construídos assim:
“E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço. ”
Assim como comecei o texto me parece que somos viciados na realização, na busca pelo dar certo, pois se der errado nos sentimos fracassados. Muitas vezes tenho a impressão que nós vivemos em duas versões na primeira o “super” esse que é toda a realização do ser, pessoas que estão sempre bem relacionadas e capacitadas e felizes. Na segunda, pessoas fracassadas, que não conseguiram alcançar seus propósitos, pessoas que não conseguem admitir sua humanidade. Sempre deixamos de lado o que somos no presente, estamos vivendo no futuro ou estamos vivendo no passado, para melhor entender, estamos nos dando conta no que poderíamos ser ou no que não somos.
Mas uma grande pergunta  me vem a cabeça. Como conseguir o sucesso sem correr o risco de se frustrar?Pois em um mundo de riscos controlados será que poderíamos fracassar? Será que poderíamos ficar tristes? Poderíamos ficar nervosos? Poderíamos perder o controle?
Agora que entendemos um pouco da idéia de Bauman sobre a modernidade líquida, podemos entender o que ele nos fala sobre sua idéia do amor líquido.Ele estudou uma série de reportagens do jornal “the guardian” sobre os relacionamentos de bolsos e faz uma analogia entre a da idéia dos relacionamentos de bolso e os acionistas da bolsa.
Os acionistas da bolsa trabalham com ações que não são deles, eles não possuem as ações e tem um único objetivo, eles compram as ações em baixa e vendem em alta. Então eles não podem investir quando as ações estão em queda. A maioria dos relacionamentos contemporâneos partilham do mesmo objetivo –  o de consumir. Querem que o outro esteja pronto para seus objetivos, o investimento não pode ser alto, pois ao se investir muito pode perder, de outra forma ao notar que o valor das ações está caindo, podem vender e comprar novas.
Uma referência que o autor faz nessa obra que eu acho interessante é que relacionamentos são investimentos como quaisquer outros, mas será que alguma vez lhe ocorreria fazer juras de lealdade às ações que acabou de adquirir? Jurar ser fiel para sempre, nos bons e maus momentos, na riqueza e na pobreza, “até que a morte nos separe”? Nunca olhar para os lados, onde quem sabe, prêmios maiores podem estar acenando?
Para concluir eu gostaria de pensar  junto com vocês.Primeiro para não fugirmos do talvez, não fugirmos do que possa parecer que irá ser ruim, pois isso pode servir de grande aprendizado.
Segundo, começar a entender a vida como um processo e não como um produto pronto para ser consumido de imediato. E, por último, que relacionamentos não são produtos que estão prontos e precisam de um processo de amadurecimento e podem falhar em seus resultados.
Daniel Frank
Psicólogo clínico 
Sou Psicólogo, apenas por hoje.