Nova contratação da UE melhora regras alimentares nas compras públicas, mas ProVeg pede medidas mais fortes

Nova contratação da UE melhora regras alimentares nas compras públicas, mas ProVeg pede medidas mais fortes

15/09/2026 0 Por Carlos Joaquim
 A Comissão Europeia publicou a proposta de revisão do quadro da contratação pública da União Europeia (UE), reconhecendo a alimentação como um setor-chave onde as considerações de qualidade e sustentabilidade são importantes.  A ProVeg congratula a disposição dedicada à contratação de alimentos no Artigo 53.º, que reconhece considerações que incluem o valor nutricional e a saúde, a produção sustentável, a equidade e a transparência nas cadeias de abastecimento alimentar, bem como a frescura e a sazonalidade.
Segundo a ProVeg Portugal, que mantém parcerias com diferentes municípios e instituições nacionais com o objetivo de promover uma oferta mais sustentável nos refeitórios públicos, o reconhecimento deste papel estratégico da contratação pública de alimentos constitui um passo importante para a UE.
“A despesa pública em alimentação na UE ascende a 50 mil milhões de euros por ano, o que reflete o enorme potencial para moldar sistemas alimentares mais saudáveis, justos e sustentáveis”, refere Joana Oliveira, Diretora Nacional da ProVeg Portugal.
Lucia Hortelano, Gestora Sénior de Políticas da UE na ProVeg International, afirma: “Os alimentos não são uma mercadoria como as outras. Os alimentos que as instituições públicas compram e servem têm um impacto direto na saúde das pessoas, nos agricultores, nas comunidades e no ambiente. Congratulamos o reconhecimento da Comissão Europeia de que a contratação de alimentos tem de ter em conta estas considerações mais amplas.”
Joana Oliveira transporta esta preocupação para a realidade nacional: “Em Portugal, as autarquias e instituições públicas precisam de clareza, rigor e segurança jurídica para modernizarem os seus cadernos de encargos. Só com regras claras e confiança será possível aos gestores públicos aplicar os recursos de forma eficiente, tornando as opções alimentares mais saudáveis e sustentáveis.”
Um passo em frente, mas continuam a existir lacunas importantes
A proposta da UE contém várias alterações. A melhor relação preço-qualidade (BPQR) passa a ser o critério de adjudicação por defeito, afastando-se da abordagem do preço mais baixo, que poderia estar a dificultar uma contratação mais sustentável. A proposta introduz também a obrigação de as autoridades públicas ponderarem a divisão dos contratos em lotes, com o potencial de melhorar o acesso para pequenos fornecedores e agricultores.
Segundo a ProVeg, estes são pontos positivos mas a proposta poderia ir mais longe, defendendo que as considerações ambientais, sociais e de saúde ter carácter obrigatório. A organização refere ainda que a abordagem BPQR é enfraquecida por disposições de “cumprir ou explicar” e por amplas derrogações, comprometendo o potencial deste novo método de adjudicação.
Do reconhecimento à ação
A ProVeg tem vindo a trabalhar com decisores políticos e outras partes interessadas para promover uma abordagem mais estratégica à contratação pública de alimentos, garantindo que esta seja sustentável, justa e saudável.
Segundo Lucia Hortelano: “O dinheiro público deve gerar valor público. A contratação pública de alimentos pode ser uma alavanca poderosa para dietas mais saudáveis, uma agricultura mais sustentável e sistemas alimentares mais resilientes.”
“A Comissão deu um primeiro passo importante ao reconhecer a alimentação no quadro revisto. Agora, com o início do processo legislativo, precisamos de consolidar esse reconhecimento com critérios claros e requisitos mais rigorosos, para que a contratação de alimentos mais saudáveis, sustentáveis e diversificados seja a norma”, conclui.
A nível nacional, a ProVeg Portugal lançou este ano um guia com recomendações para cadernos de encargos, focado em promover ementas e compras públicas mais sustentáveis. Adicionalmente, como forma de materializar este apoio, a ProVeg Portugal anunciou a abertura de uma nova fase de candidaturas para o programa Prato Sustentável, direcionada a municípios e Instituições de Ensino Superior (IES). Com uma abordagem flexível e abrangente, o programa adapta-se à realidade específica de cada entidade, permitindo às instituições optarem por diversas modalidades de colaboração, onde se inclui o apoio técnico às compras públicas sustentáveis.
Sobre a ProVeg Portugal
A ProVeg Portugal é uma organização sem fins lucrativos que faz parte da ProVeg Internacional, presente em 14 países. O seu objetivo é promover um sistema alimentar mais sustentável, saudável e resiliente, destacando a importância de uma alimentação rica em vegetais deliciosa e acessível a todos.
*Ana de Brito
 **Maria Cunha e Silva