Ricardo Costa | Expresso Curto
O tema da Coreia do Norte é o mais importante dos nossos tempos, sobretudo quando os EUA colocaram ontem um novo sistema de defesa na Coreia do Sul, apesar do desagrado de Pequim – que não quer a Península Coreana mais militarizada -, e testaram mais um míssil balístico de longo alcance entre a Califórnia e uma pequena ilha do Pacífico.
Quando vemos, do outro lado da barricada, o mais misterioso e lunático dos líderes mundiais, Kim Jong Un, e o mais fechado dos regimes, com reconhecida capacidade militar e despudorada ambição nuclear, estamos perante um tema que vai abrir muitos Expressos Curtos.
O corte nos impostos promete (ainda há muitos crivos legislativos para atravessar) ser uma coisa com efeitos brutais na economia americana e provocar ondas de choque globais. O imposto sobre as empresas pode cair para 15%, há uma taxa muito baixa para repatriação de capitais (as grandes empresas americanas têm quantidades imensas de cash fora de portas) e uma revolução nos impostos singulares, em que os mais ricos (olha que surpresa) vão pagar bem menos.
Pois bem, quando acordei Trump estava outra vez nas manchetes internacionais, mas agora porque decidiu manter os EUA no NAFTA, o importante acordo comercial com o Canadá e o México. Foi mais uma jogada do negociador que se senta na Casa Branca.
Ameaçou acabar com o acordo, mas depois de vários telefonemas de última hora com os líderes do Canadá e do México, arranjou-se uma solução intermédia e as negociações prosseguem. O abandono oficial do NAFTA devia ser anunciado sábado, quando passam exatamente 100 dias sobre a presidência de Donald Trump. Mas aos 98 dias, a ameaça ficou no papel.
A France Press fez uma curiosa infografia sobre estes (quase) 100 dias da agitada presidência. Aqui ficam alguns dados.
De acordo com um canal de televisão público ligado ao regime de Bashar al-Assad e à milícia libanesa Hezbollah, o incidente terá sido provocado por um ataque aéreo levado a cabo pelas forças israelitas. Uma informação que não foi confirmada pelo porta-voz do exército de Israel que alega a confidencialidade dos planos de voo.
Também durante a madrugada, as autoridades de Hong Kong fizeram um raide contra militantes pró-democracia no território e terão detido pelo menos nove ativistas, alegadamente ligados aos protestos que no ano passado agitaram o território chinês.
Por cá, a PJ continua à procura do suspeito do atropelamento da madrugada de sábado junto ao Estádio da Luz. O alegado homicida de um adepto italiano do Sporting já está identificado, terá utilizado naquela noite o carro da ex-mulher, entretanto descoberto em casa de um amigo que também tem ligações à claque dos No Name Boys.
O tema faz hoje capa do Correio da Manhã e estará perto de ser resolvido pela Polícia Judiciária, que tem o suspeito identificado há vários dias e que estará à espera que este desista de continuar escondido.
Outro tema que se arrasta no passar dos dias é o de ataques com cães perigosos. Ontem houve mais dois casos, um em Ílhavo, com um Cão de Fila a ferir na cara uma criança de 3 anos em casa dos avós, e outro em Arouca, com um Serra da Estrela a atacar um rapaz de 9 anos na via pública.
O dono do cão que anteontem atacou uma menina em Matosinhos já foi ouvido em tribunal. O homem não falou aos jornalistas à saída e o Ministério Público não divulgou os crimes imputados. A criança de 4 anos está livre de perigo e o cão em quarentena, como é obrigatório nestes casos.
Esta sucessão de acontecimentos serviu para atualizar uma estatística nada simpática: em 15 meses, a GNR registou 355 vítimas de ataques de cães.
Outro caso com contagem é atualização é o do recente surto de sarampo. O número de casos está agora em 25. Os números foram atualizados por Francisco George, Diretor Geral de Saúde, numa ida ao Parlamento em que atacou esta moda “bizarra, hippie” de não vacinar os filhos.
Em Almeida, dois autarcas juntaram-se a cerca de cem populares e estiveram sete horas fechados na dependência local da Caixa Geral de Depósitos. A “ocupação” resultou no adiamento do encerramento da dependência bancária, inicialmente agendada para hoje. Tudo será discutido na próxima terça-feira entre a autarquia e a administração da CGD. Alma até Almeida, pelo menos até terça-feira.
Não haverá despedimentos na Caixa. Como assim? A garantia foi dada pela equipa das Finanças numa audição no Parlamento. A questão não é assim tão simples porque, claro, vão mesmo sair dos quadros da instituição cerca de 2300 trabalhadores. Mas tudo será por via amigável e reformas antecipadas. Ok, vamos falando.
O debate quinzenal no Parlamento foi mais uma magnífica homenagem àquilo a que a língua portuguesa designa por conversa de surdos. Governo e oposição falaram de coisas diferentes um bom par de horas.
No meio da confusão, o executivo anunciou que o défice baixou novamente no primeiro trimestre do ano e ao longo do dia soube-se ainda que os funcionários públicos terão tolerância de ponto no dia 12, data em que o Papa Francisco chega a Portugal.
A decisão provocou a estupefação de Tiago Barbosa Ribeiro, deputado voluntarista do PS do Porto, que protestou contra o seu governo nas redes sociais.
Num gesto ecuménico, o mesmo executivo ruma esta manhã ao Forte de Peniche para um Conselho de Ministros fora de portas. A data assinala a libertação dos últimos presos políticos, libertados exatamente dois dias depois do 25 de Abril da então prisão de Peniche. O futuro do forte tem estado envolvido em intensa polémica.
Isaltino Morais está de volta. O ex-autarca e ex-ministro, caído em desgraça por evasão fiscal, pela qual cumpriu pena de prisão efetiva, regressa para tentar reconquistar a “sua” câmara de Oeiras.
FRASES
“A Caixa, tal como estava no início de 2016, era um banco zombie”. Mário Centeno, ministro das Finanças, numa audição parlamentar
“Esta moda bizarra de não vacinar crianças tem tido estas consequências”. Francisco George, diretor-geral de saúde, no Parlamento
“Causa-me enorme estranheza e estupefacção que o Governo se prepare para conceder tolerância de ponto a propósito da viagem do Papa a Fátima”. Tiago Barbosa Ribeiro, deputado do PS, num post no Facebook
“Não quero pagar as dívidas dele ao Novo Banco”. Bruno Carvalho, presidente do Sporting, sobre Luís Filipe Vieira
O QUE EU ANDO A LER
O primeiro livro de Bruno Vieira do Amaral teve entrada na direta na curta lista de primeiras obras bem recebidas pela crítica e pelo público. As primeiras coisas (Quetzal, 2013) transportou-nos para a realidade suburbana da margem sul do Tejo, para um imaginário Bairro Amélia, espelho do Vale da Amoreira (onde o autor cresceu).
O incrível detalhe e imaginação, bem como a originalidade da abordagem, valeram ao livro uma série de prémios ( Prémio Literário José Saramago 2015, Prémio Literário Fernando Namora 2013, Prémio PEN Clube Narrativa 2013, entre outros).
Quatro anos depois, Bruno Vieira do Amaral regressa com Hoje estarás comigo no Paraíso (Quetzal, 2017), um novo mergulho num território pouco trabalhado pela literatura portuguesa. O romance confirma o brilhantismo do autor, agora numa espécie busca familiar.
O ponto de partida é o brutal assassinato do primo João Jorge (1963-1985), dos poucos pormenores conhecidos, dos escassos relatos e testemunhos, numa reconstituição de memórias esparsas que vão construindo a família do autor, as suas histórias e geografias.
O título vem direto do Evangelho de São Lucas, na tradução de Frederico Lourenço («E Jesus disse-lhe: “Amén te digo: hoje estarás comigo no paraíso”») e a inspiração das célebres primeiras linhas da Crónica de uma morte anunciada (“No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se Às 5h30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo”).
Ninguém pode impedir a morte de João Jorge. Mas um livro como este pode resgatá-lo.
O Expresso Curto fica por aqui. O dia continua a girar no Expresso Online e ao fim do dia chega o Expresso Diário. Tenha uma boa quinta-feira, dia 98 da era Trump.