Tanto tempo depois, contudo, ainda é possível comemorar o 25 de Abril de 1974 de uma forma original, não o reduzindo às comemorações oficiais, que durante alguns anos parecia que se realizavam só porque tinha de ser e cada vez mais circunscritas às cerimónias oficiais? E a resposta é: sim, é possívelcomemorar o 25 de Abril como se ele fosse o que sempre devia ter sido – uma festa do povo e para o povo.
Não falo do excelente concerto que a EGEAC realizou na noite de 24 para 25 no Terreiro do Paço e onde os artistas convidados – Lura, Vitorino, Silvia Pérez-Cruz, o tenor Mário Alves e a soprano Marina Pacheco – fizeram questão de cantar músicas de intervenção em português e espanhol, evocativas da luta pela liberdade nos dois países, que terminou com os versos de “Todo cambia”: “Cambia lo superficial, cambia también lo profundo, cambia el modo de pensar, cambia todo en este mundo”. Nem falo da grande manifestação que, mais uma vez, levou a que milhares de pessoas enchessem a Avenida da Liberdade – estas, sim, comemorações do povo e para o povo.
Falo sim da decisão de Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e Ferro Rodrigues de abrirem ao povo os jardins do palácio de Belém, da residência oficial do primeiro-ministro em São Bento e as instalações da Assembleia da República. E as longas filas em qualquer dos edifícios foi a prova de que é também por decisões como esta, simbólicas, que se reduz a distância entre eleitores e eleitos, entre cidadãos e políticos, ao contrário do que aconteceu nos últimos anos, em que o medo e a paranoia de segurança estabeleceram um cordão sanitário que cavou uma distância cada vez maior entre quem manda e quem elege.
Depois, claro, houve as comemorações oficiais. O Presidente da República, que à tarde condecorou o ex-primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, e o antigo bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant´Iago da Espada, ambos a título póstumo, e o arquiteto Álvaro Siza Vieira, com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, já tinha dito que, ao contrário dos seus antecessores, não pretendia utilizar a data para fazer leituras da situação política e enviar recados ao Governo.
E assim foi – a não ser que se considere a frase “Os dois anos e meio que faltam para o termo da legislatura parlamentar terão de ser de maior criação de riqueza e melhor distribuição” como um remoque à atuação do Governo socialista. O primeiro-ministro [xpresso.sapo.pt/politica/2017-04-25-O-primeiro-ministro-na-Assembleia-so-ouve-os-discursos-do-25-de-Abril]respondeu logo: “Todos os dias trabalhamos para isso”. Vasco Lourenço, [xpresso.sapo.pt/politica/2017-04-25-Vasco-Lourenco-elogia-discursos-nao-houve-bota-abaixo-como-noutros-anos]presidente da Associação 25 de Abril e um dos elementos fundamentais do movimento dos capitães que derrubou a ditadura, corroborou: “Foram discursos construtivos. Não houve bota abaixo como às vezes acontece”.
Com efeito, PSD e CDS até evocaram o nome de Mário Soares, recentemente falecido. Teresa Leal Coelho (PSD) defendeu “tolerância zero no combate ao enriquecimento ilícito”. Isabel Galriça Neto (CDS) sublinhou a posição do seu partido contra a eutanásia. Alberto Martins (PS) sustentou a necessidade de uma “viragem” na União Europeia, “uma Europa mais dos cidadãos que dos mercados”. Mariana Mortágua (BE) disse que “o maior perigo é a austeridade que renasce”. Jorge Machado (PCP) frisou que os comunistas valorizam os passos dados pelo Governo, mas que “importa ir mais longe”, nomeadamente na renegociação da dívida. Heloísa Apolónio (Verdes) quer que o Governo se afaste da obsessão dos números imposta por Bruxelas. E André Silva (PAN) afirmou que “ainda há espaço para democratizar”.
Já agora, veja como os jornais das ex-colónias noticiaram o 25 de Abril… que só lá chegou a 27 ou 28, em mais um excelente trabalho da minha camarada de redação, Manuela Goucha Soares.
Há 7500 casos de sarampo em 14 países europeus, 1500 surgiram este ano. Em Portugal, estão já identificados 24 casos, um dos quais um profissional de saúde. A irmã da jovem que morreu e que se encontra internada preventivamente só foi vacinada já depois do sarampo ter sido detetado na sua irmã.
A visita do Papa a Portugal vai levar a que as fronteiras portuguesas sejam repostas entre 10 e 14 de Maio. Quem quiser entrar ou sair do país tem de apresentar documentos de identificação, cartão de cidadão ou passaporte. Entretanto, os funcionários públicos terão tolerância de ponto a 12 de Maio, dia em que o Papa chega a Portugal.
Segundo as contas do Fundo Monetário Internacional, entre 2010 e 2017, nenhum país do mundo reduziu tanto o défice estrutural sem juros como Portugal. Os dados fazem parte da base de dados do Fundo, actualizada na semana passada quando publicou o mais recente Fiscal Monitor, e mostram o esforço de consolidação orçamental levado a cabo por Portugal nos últimos sete anos.
Uma criança de nove anos foi ontem atacada por um cão em Arouca, mas “encontra-se estável” no Hospital de São João, no Porto. Segundo os bombeiros, o cão arrancou uma orelha à criança e inflingiu-lhe cortes num ombro e mum braço com os dentes. O dono do animal será hoje presente a um juíz.
Em Itália, a companhia de bandeira Alitalia vai avançar para um processo de insolvência, após os trabalhadores da transportadora, detida em 49% pela Etihad Airways, terem rejeitado o plano de recuperação apresentado para a empresa, que estará a perder 500 mil euros por dia.
O plano em causa previa o corte de 1.700 postos de trabalho e a redução em 8% dos ordenados dos tripulantes de cabine.
FRASES
“A única maneira sensata de proporcionar um alívio fiscal aos trabalhadores de rendimento médio e baixo é aumentar os impostos sobre os ricos. Esta é uma ideia populista socialmente progressista que um plutocrata pseudo-populista como Trump nunca aceitará”. Nouriel Roubini economista norte-americano, Jornal de Negócios. E se fosse só o Trump a não aceitar, Nouriel!
“Portugal não é um país perfeito” mas é “uma Pátria em paz, com apreciável segurança” e mesmo “se carecido de reformas, mais sustentável do que muitos outros nossos parceiros europeus”. Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, Público. Não há como Marcelo para nos fazer orgulhar de Portugal.
“Temos algumas linhas de investigação cruciais [sobre o desaparecimento da pequena Maddie, no Algarve, há dez anos] estão ligadas a certas hipóteses, mas não vou discuti-las porque fazem parte de uma investigação em curso. Temos algumas teorias sobre o que podem ser as explicações mais prováveis e estamos a investigá-las”. Mark Rowley, diretor-geral adjunto da Polícia Metropolitana britânica. Bom, Mark, dez anos é muito tempo, como diz a canção. E agora só se for mesmo para tentar perceber não o que aconteceu mas como aconteceu.
“Nada está ganho. É preciso lutar”. Emmanuel Macron, que venceu a primeira volta das eleições presidenciais em França e que dentro de 15 dias disputará a segunda volta com Marine Le Pen, da Frente Nacional. Ah, pois não está, Emmanuel. Sobretudo, as eleições legislativas de Junho vão obrigar-te a estudar muito atentamente o caso português, porque vais ter necessidade de diversos apoios para o teu Governo. Mas falas com o António e ele dá-te umas dicas.
O atropelamento intencional e fatal de um adepto italiano do Sporting às mãos de um elemento da claque benfiquista dos No Name Boys (A PJ já encontrou e apreendeu a viatura envolvida na situação, que estava escondida numa garagem na Amadora; e o proprietário do carro está identificado) levaram-me a tentar perceber o mundo das claques. O Miguel Cadete, meu camarada de direção do Expresso, indicou-me “Grupo 1143”, de Andrea Sani, um italiano que viveu cinco anos em Portugal enquanto fazia a formação ao abrigo do Erasmus e que integrou esta claque do Sporting Clube de Portugal. Ainda só vou a meio do livro, mas o que já li confirma as piores suspeitas. Droga, marginalidade e banditismo são realidades incontornáveis entre os elementos que integram as claques, tanto em Portugal como no resto da Europa. As direções dos clubes e os jogadores ficam reféns dessas mesmas claques – e tentam estabelecer acordos para salvar as suas posições. No caso em apreço, por exemplo, o acordo assinado entre a direção do Sporting e as claques levava a que, segundo Andrea Sani, se “uma claque apresentasse mil associados, cada chefe de claque receberia mensalmente 6 euros por cada um dos sócios, já que a quota do clube eram 12 euros, o que faria um total de 6000 euros mensais, livres de impostos (…) Nasceu assim um dos melhores ‘empregos’ que tive conhecimento em toda a minha vida. Um ordenado principesco para não incomodar os dirigentes, denunciar os próprios companheiros à polícia, sem precisar de comparecer no estádio e ainda o privilégio na venda de ingressos como vim a comprovar mais tarde”. Convenhamos que este mundo negro não é nada recomendável – e pactuar com ele dará seguramente péssimos resultados.
Quanto a música, cinco dias em Cabo Verde para cobrir o Kriol Jazz Festival dá para perceber que Cesária Évora continua omnipresente no panorama musical do país, mas que há outros valores que se começam a afirmar. Élida Almeida, que escreve a maior parte das letras das suas canções, é seguramente uma delas. A faixa ‘Bersu d’Oru’ do seu último álbum ‘Djunta Kudjer’ tem todos os ingredientes para se tornar um dos clássicos da música caboverdeana. Para seguir é também o trajecto de Silvano Sanches, que funde as mornas, coladeiras e funanás aos ritmos do Mali, fazendo-se acompanhar por um dos guitarristas mais populares deste país, Samba Diabaté, e pelo suíço Vincent Zanetti, multi-instrumentista, especializado em tradições musicais da África Ocidental. Finalmente, outro valor a despontar, cujo primeiro disco será lançado no final deste ano, é Lucibela. Na apresentação que fez optou por músicas que foram cantadas, entre outros, por Cesária. E o mínimo que se pode dizer é que Lucibela vai ser seguramente um caso muito sério da música cabo-verdiana. Para já, se a quiser conhecer, ela por vezes canta no B.Leza, em Lisboa. Finalmente, descobri um cantor já veterano: Mário Lúcio. O seu álbum “Kreol”, onde faz parcerias, entre outros, com Milton Nascimento, Pablo Milanés ou Harry Belafonte, tem verdadeiras pérolas. E o seu mais recente álbum, “Funanight”, dedicado a um dos ritmos mais queridos e animados de Cabo Verde, o funaná, é verdadeiramente imprescindível.
