Universidade de Évora cria “pacientes virtuais” para antecipar riscos das doenças crónicas no Alentejo

03/11/2026 0 Por Carlos Joaquim
Projeto PROFILER cruza uma década de dados de saúde para identificar diferentes trajetórias clínicas e apoiar um acompanhamento mais personalizado
E se os dados produzidos hoje nos hospitais e centros de saúde ajudassem a antecipar os problemas de saúde de amanhã? É esta a ambição do PROFILER – Perfis Clínicos, Terapêuticos e Evolutivos para a Gestão Personalizada e Preditiva de Doenças Crónicas no Alentejo, projeto coordenado por Paulo Infante, investigador do Centro de Investigação em Matemática e Aplicações da Universidade de Évora.
O projeto vai analisar dados de saúde de 2015 a 2025, procurando identificar padrões e trajetórias associados à evolução das doenças crónicas. Serão estudadas pessoas com 55 ou mais anos, com especial atenção à diabetes, hipertensão arterial e obesidade, cruzando informação clínica, resultados laboratoriais, medicação, contactos com os cuidados de saúde, idas à urgência e internamentos.
A ideia parte de uma constatação simples: dois doentes com o mesmo diagnóstico podem ter riscos e necessidades muito diferentes. Uma pessoa com diabetes, por exemplo, pode apresentar doença renal, polimedicação e recurso frequente à urgência, enquanto outra, com o mesmo diagnóstico, mantém uma trajetória clínica estável.
É precisamente nestas diferenças que o PROFILER pretende atuar. Através de métodos estatísticos e de inteligência artificial, os investigadores vão procurar identificar combinações de fatores associadas a diferentes trajetórias e riscos, como a probabilidade de uma ida à urgência ou de um internamento.
“Pacientes virtuais” para testar cenários
Uma das componentes mais inovadoras do projeto será a criação de “pacientes virtuais”: modelos computacionais construídos a partir dos padrões observados nos dados reais. Estes perfis permitirão simular diferentes cenários e explorar, em ambiente computacional, o que poderá acontecer perante diferentes estratégias terapêuticas, sem expor pessoas reais a qualquer risco.
“O diagnóstico é o mesmo; o risco e as necessidades podem não ser”, explica Paulo Infante, sublinhando que o objetivo não é substituir o médico por um algoritmo, mas produzir conhecimento que permita aos profissionais dispor de mais informação e agir mais cedo.
O projeto aposta ainda em modelos explicáveis, procurando perceber não apenas que risco é identificado, mas quais os fatores que contribuem para esse risco. “Não queremos criar uma ‘caixa negra’ que diga ao médico o que deve fazer”, afirma o investigador.
A investigação assume particular relevância no Alentejo, uma região marcada pelo envelhecimento e pela dispersão populacional. Ao identificar diferentes perfis de risco, o PROFILER poderá contribuir, após validação científica e clínica, para um acompanhamento mais próximo de determinados grupos de doentes e para uma utilização mais eficiente dos recursos de saúde.
O PROFILER reúne investigadores de áreas como estatística, inteligência artificial, ciência de dados, medicina, demografia e gestão, em articulação com a ULS Alentejo Central. A proteção dos dados é uma componente fundamental do projeto, que prevê o trabalho com informação pseudonimizada, em ambiente seguro e com resultados apresentados de forma agregada.
Para Paulo Infante, a ambição do projeto pode resumir-se numa frase: “Transformar dados de hoje em conhecimento que permita antecipar melhor as necessidades de saúde de amanhã.”

*Marco Paulo Alfaiate Cardoso