Em “Conta-me uma Canção”, 10 artistas dissertam (e cantam) sobre o poder da Canção

Em “Conta-me uma Canção”, 10 artistas dissertam (e cantam) sobre o poder da Canção

31/08/2022 0 Por Carlos Joaquim
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Tendo como pano de fundo o legado de mais de 25 anos de parceria com alguns dos mais talentosos e influentes “escritores de canções” nacionais, a produtora de espectáculos e management de artistas Vachier & Associados, Lda. concebeu um projecto em torno daquilo que é o bem mais valioso da música popular – a Canção. A possibilidade de, através dos suportes produzidos, contribuirmos para a nossa memória colectiva dá uma dimensão a “Conta-me uma Canção” que se espera convergente com a importância que muitas destas criações ganharam nas nossas vidas.

Para a Série 1 de “Conta-me uma Canção”, a V&A convidou David Fonseca + Jorge Palma; Best Youth + LINCE; Joana Espadinha + Mafalda Veiga; Joana Alegre + Sérgio Godinho e Benjamim + Samuel Úria. A par das histórias das canções escolhidas, das versões cruzadas, e de uma conversa necessariamente íntima entre dois criadores, cada parelha de cantautores produziu ainda uma versão/ releitura de uma canção, que não da sua autoria, ​resultando daí reinterpretações de Bee Gees, Jorge Palma, Chico Buarque, Bob Dylan ou dos irmãos Torrão.

A exposição deste “Conta-me uma Canção” na contemporaneidade obriga não só à adequação às novas linguagens de comunicação, mas também a uma atenção especial à riqueza que a música nacional tem desenvolvido nas últimas décadas. Daí que os nomes escolhidos para este arranque traduzam não só criadores de gerações distintas, mas também de origens e géneros diferentes. Desse confronto, e claro, das canções, espera-se a riqueza deste “Conta-me uma Canção”.

Feliz coincidência a estreia de “Conta-me uma Canção” ocorrer no dia de aniversário do “escritor de canções” Sérgio Godinho, artista representado pela V&A há década e meia, participante no episódio 4 desta série e mestre na arte das canções – Parabéns, Sérgio!

Gerações e percursos distintos fizeram Jorge Palma e David Fonseca chegarem à música e à escrita de canções. Em comum, serem ouvintes compulsivos da obra dos grandes mestres, a ponto de terem escolhido uma canção de Bob Dylan para cantarem juntos. Ainda a destacar, a revelação do que os inspira e estimula na procura do melhor encaixe entre música e letra – em Jorge Palma, o nome da personagem de “Mi Fá” levou-o numa viagem pela escala musical; já, para David, é impossível afastar-se da imagética que a música e/ou a letra lhe estimulam. Para este, até a escolha de “Frágil” como canção a versionar levou-o a percorrer caminhos musicais determinado pelas imagens que a canção desde sempre lhe sugeriu. Já para Jorge, a escolha pelo classicismo de “canção pop” de “Someone That Cannot Love” é natural. À parte disso, serenata e pastel de nata prometidos…
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Companheiros no projecto musical “There Must Be A Place”, a presença em estúdio de LINCE  e Best Youth para a gravação deste “Conta-me Uma Canção” reavivou muitas das cumplicidades que aquele projecto ocorrido há cerca de 10 anos havia revelado. O bom conhecimento mútuo das criações desta “gente do norte” facilitou a interacção, ainda que fossem evidentes as diferenças no modo de composição entre o projecto individual de Sofia Ribeiro e o compromisso, necessariamente colectivo e por vezes beligerante, dos Best Youth. A partilha de repertório leva-nos a versões de “Red Diamond”, original da banda de Catarina Salinas e Ed Rocha Gonçalves, aqui interpretado ao piano por LINCE; ou a um despimento de “Float”, um dos temas que figuram no primeiro álbum de LINCE, numa versão de voz e guitarra. A pop “perfeita” encontram-na em “How Deep Is Your Love” para uma interpretação a três do hino dos irmãos Gibb.
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Descobrirmos que a primeira canção interpretada por Joana Espadinha, em palco, era da Mafalda Veiga foi algo que não esteve presente na definição desta parelha. Mas, feliz coincidência, foi um bom trigger para que a conversa à frente da câmara fluísse para a revelação de que habitualmente criam de forma inversa – se para Mafalda a palavra vem sempre primeiro, já para Joana a música e a sua melodia influenciam fortemente as palavras escolhidas. Ainda, a existência (ou não) de uma escrita feminina, ou a maternidade, a estimularem visões dalguma forma comuns. Com obras de extensão distinta, Mafalda Veiga encontrou numa das canções mais recentes de Joana Espadinha a sua escolha, interpretando à guitarra “Ninguém Nos Vai Tirar O Sol”. Já Joana surpreendeu ao escolher “Não Me Dês Razão”, tema da década passada, fugindo assim à nostalgia da sua estreia em palco. As origens comuns no Alentejo levaram-nas a escolher uma “moda” original dos irmãos Torrão, trazendo a “Conta-me Uma Canção” a dimensão da música de raiz tradicional. Com Joana e Mafalda, o guitarrista João Firmino.
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Nunca se haviam cruzado, mas o lastro existia – desde logo, Joana Alegre tem em Sérgio Godinho uma referência inconfundível na arte da “escrita de canções”; já Sérgio viu em “Joana do Mar”, a sua favorita para a edição de 2021 do Festival da Canção. Com percursos necessariamente diferentes, uma grande convergência na dimensão poética das canções ainda que, como fizeram questão de lembrar, não vejam nas letras das canções “poesia” óbvia. Curiosa a escolha de Joana Alegre em termos do repertório de Sérgio Godinho já que considera “A Noite Passada” não só uma enorme “canção”, como vê na letra que a serve um magnifico poema. Para Sérgio, a escolha recaiu em “Voz Guia”, tema do primeiro álbum de Joana. A obra de Chico Buarque determinou a escolha da canção a interpretarem em conjunto – “Geni e o zepelim”. ​Este encontro transgeracional contou com a colaboração de Nuno Rafael e André Santos.
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Fait-divers mas ainda assim uma surpresa, saber que Luís Nunes aka Benjamim poderá ter sido vítima de bullying artístico por parte de Samuel Úria e companheiros da Flor Caveira, isto quando se apresentava como Walter Benjamim e a sua composição era maioritariamente em inglês. Este aspecto e o conhecimento que têm do trabalho um do outro influenciaram todo o ambiente deste “Conta-me Uma Canção”. A inveja positiva que nutrem pelo repertório alheio determinou a escolha das canções que versionaram – para Samuel, só a incapacidade o levou a não escolher “Vias de Extinção”, tema que Benjamim fez questão de interpretar, tendo optado por uma versão provocadora de “Domingo”. Para Benjamim, “a canção” do último álbum de Samuel era “A Contenção”, e este encontro a oportunidade para uma versão instigante. A obra “não moralista” de Jorge Palma estimulou a escolha de “Jeremias, o fora da lei” para encerrar a partilha de canções e conversa. Ou melhor, para lhe colocar uma pausa, já que o encontro em palco está prometido.
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