Apelo a uma Economia de Vida em Tempos de Pandemia – Mensagem conjunta do CMI, WCRC, LWF e CWM

Apelo a uma Economia de Vida em Tempos de Pandemia – Mensagem conjunta do CMI, WCRC, LWF e CWM

05/06/2020 0 Por Carlos Joaquim
A atual pandemia de Covid-19 interrompeu todos os aspectos das nossas vidas num mundo já atormentado por imenso sofrimento humano. Em resposta, as nossas organizações – o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a Comunhão Mundial de Igrejas Reformadas (WCRC), a Federação Luterana Mundial (FLM) e o Conselho para a Missão Mundial (CWM) – por iniciativa de Organização para uma Nova Arquitetura Financeira e Económica Internacional (NIFEA) organizou entre 17 e 24 de abril de 2020, uma videoconferência subordinada ao tema: “Economia de vida em tempos de Pandemia ”.
Um painel de especialistas que fizeram parte do processo da NIFEA contribuiu com análises socioeconómicas, reflexões teológico-éticas e recomendações práticas com vista a transformações sistémicas como pedia a Declaração de São Paulo: Transformação Financeira Internacional para uma Economia da Vida que deu início ao processo NIFEA 1
A crise da Pandemia Covid-19 está enraizada nas fragilidades humanas e sistémicas. Estas resultam de sistemas económicos opressivos e exploradores, baseados na lógica da obtenção de lucros, desigualdades socioeconómicas, indiferenças ecológicas, interesses políticos próprios, e legados coloniais. Esta mensagem conjunta tem como objectivo não apenas expressar a nossa profunda preocupação, mas também apelar às comunidades Cristãs, governos e instituições financeiras internacionais para que procedam a ações esponsáveis que tratem das causas profundas desta crise, e que agora estão expostas ao mundo.
A pandemia Covid-19 expõe crises económicas e ecológicas interrelacionadas
A pandemia Covid-19 é simultaneamente um produto e um estímulo para a atual catástrofe económica. A emergência na saúde pública é sintomática de uma crise económica mais profunda que a sustenta. Décadas de austeridade – no Sul, em geral, como resultado das duras condicionantes da dívida, e no Norte, como consequência do colapso inanceiro global de 2008 – tornaram muitos países totalmente indefesos diante desta ameaça. Além disso, governações ineficazes e corruptas a níveis nacionais exacerbaram a incapacidade dos governos em apoiar aqueles que são mais vulneráveis à pandemia.
A crise ecológica que o mundo enfrenta hoje – uma consequência direta dos sistemas económicos de extração nos quais a humanidade se comporta, e acredita que se pode tratar a terra, como se ela fosse um recurso ilimitado para uma implacável exploração – está intimamente relacionada com a pandemia Covid-19. Cientistas que monitorizam a biodiversidade e a saúde dos nossos ecossistemas lembram-nos que “desflorestações desenfreadas, expansão descontrolada da agricultura, agricultura intensiva, mineração e desenvolvimento de infraestruturas, bem como a exploração de espécies selvagens, criaram a “tempestade perfeita” para o desenvolvimento exponencial de doenças”. Além disso, a expansão exponencial do coronavírus devido à urbanização e viagens aéreas globais expõe “a mão humana a uma emergência pandêmica” em que “ o Covid-19 pode ser apenas o começo”2
Encerramentos económicos e fronteiriços sem precedentes para conter a propagação do Covid-19 estão a provocar uma queda repentina nas emissões responsáveis pelas mudanças climáticas e simultaneamente a desencadear uma verdadeira crise económica, levando por sua vez, à espiral do desemprego e ao aumento das desigualdades. Medidas para resolver os impactos socioeconómicos desta pandemia têm sido meramente paliativos e foram principalmente direcionados socorrer corporativismos em vez de pessoas. Em alguns lugares, as economias já estão a retomar as suas atividades mas com riscos de morte crescente, colocando a questão do comércio entre o resgate da economia e salvar vidas. Como em muitas, senão em todas as crises, os já vulneráveis, incluindo trabalhadores com salários baixos e informais, os pobres, mulheres, pessoas de cor, migrantes e refugiados são os que sofrem mais o impacto em termos de perda de vidas e meios de subsistência.