São Felipe Neri, Fundador do Oratório

São Felipe Neri, Fundador do Oratório

26/05/2020 0 Por Carlos Joaquim

Plinio Maria Solimeo

Os santos são modelos para nós. Pela sua vida eles nos ensinam de modo concreto como servir a Deus e praticar a virtude.
─ Que lição especial nos dá São Felipe Neri?

Esse jovial santo italiano nos ensina a “servir o Senhor com alegria” (Salmo 99,2).

São Felipe nasceu em Florença em 1515
Pelo seu caráter amável, São Felipe foi chamado o “santo da alegria” ou “o jogral de Deus”. Ele é o padroeiro da santa alegria. Assim, ele pode ser nosso poderoso intercessor quando estivermos acabrunhados pelo peso da vida ou nos períodos de tristeza ou depressão — infelizmente tão frequentes nos difíceis dias em que vivemos. E também nos períodos de aridez espiritual a que estão sujeitos os homens, como uma provação a ser vencida para merecerem a recompensa celeste.
Primeiros anos de “Pippo Buono”
Segundo filho de Francisco Neri e Lucrecia da Mosciano, Filippo Romolo Neri nasceu na bela cidade de Florença, na Toscana. O casal tivera já uma filha, Catarina, nascida dois anos antes, e teria depois Elizabetta (ou Isabel), três anos mais nova. Outro filho, Antonio, morreria em tenra idade. Felipe foi batizado na igreja de São Pedro Gattolino no dia seguinte ao seu nascimento.
Francisco, modesto tabelião, era bom católico. Sua família havia sido nobilitada no serviço do Estado, por ter exercido durante gerações funções de relevo na cidade.
Felipe contava apenas cinco anos quando perdeu sua mãe, mas encontrou na madrasta, Alexandra de Michele Lensi, uma digna sucessora que o amou como filho.
O menino era tão amável, jovial e terno, que logo se tornou conhecido como Pippo Buono, “o bom Felipinho”. Sua bondade de coração e sua amabilidade eram contagiantes. Permeadas pela graça divina, elas se tornariam o grande segredo de suas conquistas apostólicas.
Sua irmã Isabel, testemunhando no processo de beatificação do irmão, afirma que ele “jamais causou desgosto a seu pai, nem fez algo pelo qual ele o repreendesse (exceto por uma zanga feita uma vez à sua irmã). […] Era pacífico, e jamais se zangou; era alegre [‘brincalhão’, dizia ela numa primeira declaração], máxime com a madrasta, e era manso e paciente”.(1)
Aventuras dos tempos infantis
Felipe aprendeu as primeiras letras com um professor chamado Clemente, que lhe ensinou a ler, escrever e contar.
De sua primeira infância restam-nos dois episódios, narrados pelos seus primeiros biógrafos. Quando Pippo tinha cerca de oito anos, querendo certa vez silêncio para poder refletir sobre algum assunto que lhe viera à mente, começou a ser perturbado por sua irmã. Eles se encontravam no alto de uma escada. O menino não teve dúvidas: deu-lhe um empurrão e ela rolou escada abaixo.
O outro fato é apresentado pelos seus biógrafos. Quando Felipe tinha mais ou menos essa mesma idade, foi brincar num terreno perto de sua casa. Vendo ali uma mula carregada de frutas que alguém trouxera para vender, não hesitou um instante: pulou na garupa da besta para fazê-la cavalgar. Assustada, a mula desequilibrou-se, rolando com a carga e derrubando o menino. Quando os pais e vizinhos acorreram, pensando encontrar morto o imprudente cavaleiro, viram-no ileso e sorrindo devido àquela aventura.
Felipe estudou depois no convento dominicano de São Marcos, na sua cidade natal. Mais tarde dirá que devia muito do seu progresso intelectual a dois professores daquela casa religiosa, Frei Zenóbio de Medici e Frei Servanzio Mini.
Falta de tino comercial, mas senso do divino
Aos 18 anos Pippo foi enviado à casa de seu “tio” (primo-irmão do pai) Bartolomeu Romolo, na vila de São Germano, aos pés do Monte Cassino, para iniciar-se na carreira de comerciante. Ganhou a confiança e a afeição do tio, mas, “apesar de se dedicar com empenho ao negócio, suas cogitações estavam muito acima das mercadorias com que tratava. Logo se viu que ele não tinha tino comercial, mas senso do divino. Apenas terminado o trabalho do dia, Pippo se retirava para uma igreja ou um oratório, abundantes na Itália. Servia-se também do emprego para fazer apostolado, perguntando aos fregueses se sabiam o Pai-Nosso ou se haviam feito a Páscoa. O tio comentava: ‘Felipe nunca será um bom comerciante. Eu lhe deixaria toda a minha herança, se não fosse essa mania de rezar’. Para Felipe isso não era ‘mania’, mas necessidade. ‘Nada ajuda mais o homem do que a oração’, dirá mais tarde”.(2)
Um dos locais preferidos de Felipe era uma “capela de montanha pertencente aos beneditinos de Monte Cassino, construída sobre a baía de Gaeta, na fenda de uma rocha que, segundo a tradição, fendera-se na hora da morte de Nosso Senhor”.(3)
São Felipe promoveu a música e a pintura como um meio de formação de seus jovens
Peregrinação à Cidade Eterna
Em 1534, com 20 anos incompletos, movido por um impulso sobrenatural, Felipe partiu para Roma como peregrino, na mais completa pobreza. Não comunicou sua resolução aos pais nem a qualquer outro parente.
Na Cidade Eterna ele procurou Galeotto Del Caccia, um aristocrata seu conterrâneo e aduaneiro, que pagava as aulas ministradas por Felipe a seus dois filhos com pousada e uma renda em farinha, que Pippo transformava em pão para seu sustento.
Seu quarto na casa desse aristocrata — talvez por escolha do próprio hóspede — era um cubículo, tendo como únicos móveis um leito, uma pequena mesa e uma corda presa à parede para pendurar suas roupas.
Felipe destinava quase todo o seu tempo livre à oração. Sua vida era tão pura e edificante, que logo chamou a atenção, começando sua fama de santidade a espalhar-se por Roma, chegando até Florença. Quando falaram dele à sua irmã Isabel, esta ponderou: “Isso não me surpreende. Desde seus primeiros anos, vendo suas virtudes, eu podia já conjecturar que ele se tornaria um grande santo”.(4)