Com a abstinência de carne, a Igreja favorece o vegetarianismo? — Reposta do Pe. David Francisquini
Pergunta — Por que a Igreja proíbe comer carne nos dias de jejum e nas sextas-feiras? Agindo assim, não mostra certa reticência a este alimento, dando razão aos adeptos do regime vegano? Pergunto isso porque um colega de trabalho, que é vegetariano, me fez esse comentário e eu não soube responder. Obrigada.
Pe. David Francisquini
Resposta — A disciplina atual da Igreja latina impõe aos fiéis “guardar abstinência e jejuar nos dias determinados pela Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, n° 2043). O jejum e a abstinência são obrigatórios na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa; e a mera abstinência todas as sextas-feiras do ano, salvo se coincidir com alguma solenidade, conforme o cânon 1251. Mas, por disposição da CNBB, os fiéis brasileiros podem substituir a abstinência de carne das sextas-feiras por uma obra de caridade, um ato de piedade, ou pela privação de outro alimento (Diretório da Liturgia e da organização da Igreja no Brasil, 2010).
Antigamente, a obrigação de abstinência começava com o uso da razão, ou seja, aos sete anos, mas atualmente ela passa a vigorar somente a partir dos quatorze anos de idade, e vai até o fim da vida (o jejum é obrigatório somente entre os 18 e 59 anos). Da obrigação de abstinência — a qual vigora sob pena de pecado mortal — estão dispensados os doentes, os operários que realizam trabalhos cansativos, os soldados em campanha e os pobres e viajantes que não dispõem de outros alimentos.
Importa destacar que a obrigação da abstinência de carne é um costume multissecular na Igreja, confirmado por lei eclesiástica. Sua finalidade é nos ajudar a mortificar nosso corpo e dominar as paixões. Tal obrigação não é de direito natural; ou seja, embora o direito natural obrigue os pecadores a fazerem penitência por seus pecados, não lhes impõe nenhum meio específico para isso. Depois da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, essa obrigação deixou de ser de direito divino. Antes ela acontecia na lei mosaica, que proibia aos judeus o consumo de certos alimentos.
Na lei da abstinência de carne não entra, portanto, aversão alguma da Igreja em relação à carne como alimento, nem ao seu consumo pelo homem, contrariamente ao afirmado de modo errôneo pelo colega de nossa missivista e pelos que outrora sustentavam algumas heresias (como a dos maniqueus, para os quais a carne e todo o mundo material eram uma coisa má em si mesma). Pelo contrário, o Gênesis nos diz que cada categoria de seres criados foi considerada boa por Deus; e no relato referente ao sexto dia da criação, acrescenta: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (1, 31).