Esqueçam Greta e ouçam os índios…

Esqueçam Greta e ouçam os índios…

09/02/2020 0 Por Carlos Joaquim
No livro Casa Grande e Senzala, Gilberto Freire expõe com precisão e acerto um dos elementos fundamentais da nacionalidade brasileira, quando na Batalha de Guararapes se uniram três etnias — branca, índia e negra — contra os hereges holandeses. Ele descendia de índios, mas não discorreu muito sobre a questão indígena, pois trabalhava com a hipótese de os silvícolas se inserirem paulatinamente na sociedade brasileira. Lembra, a propósito, que a filha do Cacique Arco Verde, saída do sertão, foi criada quase como uma princesa na mais alta aristocracia portuguesa.
Batalha de Guararapes – Victor Meirelles (1832–1903). Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.
Gilberto Freire preconizava uma urbanização aquática para as nossas regiões quentes, como as que existem em cidades amazonenses, inclusive Manaus, onde muitas casas flutuam sobre as águas. Ao discorrer sobre o seu ideal de desenvolvimento, ele queria que a hidrovia fosse o meio principal de escoamento dos produtos da região, nomeadamente os óleos essenciais para medicina, farmacopeia e cosméticos.
Posição equivalente, a propósito da mesma gama de atividades, é a do livro Amazônia do mundo verde, sonho da humanidade, em que Gilberto Mestrinho — ex-governador do Amazonas, um político com visão de Estado — alerta para a cobiça internacional sobre a Amazônia. Qual a razão dessa cobiça? O seu grande potencial de riquezas, que abrange vários setores da economia. Nosso espaço não nos permite abordar assunto tão vasto, por isso nos limitamos ao aproveitamento das várzeas dos grandes rios e lagos para o cultivo e a agropecuária.
Segundo Mestrinho, em decorrência do degelo nos Andes e das chuvas torrenciais, que caem na região num determinado período do ano, o Rio Amazonas sobe 20 metros ou mais, alcançando em alguns pontos até 200 quilômetros de largura. Com a estiagem e o inverno dos Andes, os rios voltam à calha principal, deixando ao longo de milhares de quilômetros das suas margens uma larga várzea que, num cálculo preliminar, ultrapassa 20 milhões de hectares. Alagam-se nas cheias, e na estiagem refluem as águas dessas terras descampadas e sem árvores, deixando-as altamente adubadas pelos sedimentos trazidos pelas águas; sobretudo o calcário, que os pecuaristas usam para terminar a engorda do gado.
Quando a água diminui, imensas barcaças/currais transportam para esses locais centenas de garrotes, que ao cabo de seis meses já estão prontos para o abate. Quinze dias após baixarem as águas, nasce o capim nativo, o arroz selvagem (“arroz de marreca”), altamente nutritivo e saudável para o gado.
Mestrinho mostra o incremento significativo de nossa agricultura intensiva e especializada, ao serem assim incorporados mais de 20 milhões de hectares durante seis meses do ano. Se não podem ser aproveitados nos 365 dias, em razão da inundação, seu benefício é fartamente compensado pelos nutrientes abundantes — um presente das águas, como acontece nas férteis margens do rio Nilo, no Egito.
Ao abordar esse assunto, não estamos imaginando a Amazônia habitada pelos muitos varões de Plutarco. Falamos de brasileiros como nós, dos quais vale a pena saber o que dizem e pensam, especialmente sobre essas áreas que lhes pertencem, e que eles conhecem muito melhor que qualquer burocrata. O próprio Mestrinho, aliás, descende de cearenses e índios tikuna, e se incorporou à sociedade amazonense.
Somos partidários da preservação da floresta, mas é bom contar aos jornalistas desinformados (ou informados, sim, mas mal intencionados) que basicamente foram destinadas à produção as áreas de cerrado, cerradinho e cerradão, e apenas uma parte pequena da floresta úmida (rain forest). Gostaríamos que nos próximos anos as queimadas diminuam. No entanto, se progredirem no ritmo deste ano, as florestas úmidas só serão consumidas dentro de uns 500 anos, segundo cálculos seguros.