SOCIEDADE | Os doentes ressuscitados do Hospital de São João: quem morre, pode salvar
Quando o ECMO, máquina que consegue substituir o coração e os pulmões, não recupera um doente, pode ajudar outro. Decretado o óbito, liga-se a máquina e tiram-se os órgãos
Na passagem do ano de 2016 para 2017 foi feita a primeira recolha de rins no São João de um doente em paragem cardiocirculatória não programada (quando a paragem cardíaca é inesperada, habitualmente fora do hospital). Foi decretado o óbito e o doente ligado ao ECMO – a máquina que substitui o coração e os pulmões – para manter a circulação e os órgãos poderem ser recolhidos em melhor estado. O procedimento entrou na rotina do centro, mas Roberto Roncon, o coordenador, não se dá por satisfeito e quer avançar para o transplante de pulmões e para a recolha de órgãos de doentes em paragem cardiocirculatória programada (quando a paragem é prevista e ocorre no hospital, normalmente com doentes com hemorragias cerebrais catastróficas que não evoluem para morte cerebral mas que não recuperam a consciência). Não há data para os próximos passos e, até lá, é com o transplante de rins que a “tropa” — como Roncon define a equipa — continuará a mudar vidas.
Quem morre pode salvar, não por ser potencial doadora,mas por opção de não se excluir, em vida, à respetiva dádiva de qualquer órgão seu, pós morte.
Foi o que fez minha filha com 22 anos, em morte cerebral, por suicídio, doou sete órgãos.
O óbito foi a 03/06/2019.
Onde está o coração de minha menina?
Disto depende a minha continuação nesta dimensão.
Agradeço me ajudem a encontrar a minha única saída.