O maior mendigo

24/12/2016 0 Por Carlos Joaquim
O
homem, quando se guia só pelos instintos e se deixa levar por seu
latente egoísmo, é, de todos os animais, o mais feroz e o mais
cruel. Não fosse assim, não haveria extremos, em termos de posses.
Não existiriam fortunas pessoais absurdas, de tão grandes que são,
maiores do que a de países inteiros e, no outro extremo, pessoas sem tecto, esfarrapadas, sujas e mendigando um reles prato de comida ou,
na pior das hipóteses, uma dose de bebida alcoólica para tapear uma
fome crónica e insaciável. Há, todavia, milhões destas criaturas,
mundo afora, encaradas com indiferença tanto pelas autoridades, às
quais compete lhes dar assistência e protecção, quanto pela
população.
Numericamente,
há muito mais carentes, que não têm sequer certeza de obter o
almoço de cada dia (por frugal que seja) do que os que não precisam
se preocupar com as incertezas da existência. E a cada dia, novos
contingentes vêm se juntar a essa multidão de zumbis, de indivíduos
sem esperanças e sem futuro, carentes de tudo e de todos, que buscam
a mera sobrevivência física, assim mesmo na base do puro instinto.
O homem é, pois, ou não é o mais feroz, o mais cruel e o mais
insensível dos animais?

Milhões,
mundo afora, têm apenas as ruas das cidades como lar.
Indigentes
não faltam, portanto, cada qual mais desvalido do que o outro numa
surreal competição pelo troféu de miserável dos miseráveis. E,
no entanto, essas pessoas são dotadas de inteligência, sentimentos,
sonhos e esperanças. Ou, pelo menos, um dia foram. São, como nós,
feitas “à imagem e semelhança de Deus”. Comete, pois,
sacrilégio quem, por acção ou omissão (não importa) permite que
alguém se degrade a esse ponto e permaneça em degradação.
Onde
estão os que apregoam por aí o desejável (ou meramente
hipotético?) “reino do céu”, mas que se omitem diante das
necessidades mínimas, porém inadiáveis e prementes, de tantos dos
seus semelhantes? Onde o senso, já não digo de justiça (pois deste
o homem não pode se vangloriar de ter, pois não tem), mas de
caridade e de fraternidade, pregado há mais de dois mil anos por
Jesus Cristo (traído e morto por aqueles a que pretendia despertar a
voz da razão)? O homem é, pois, ou não é o mais feroz, o mais
cruel e o mais insensível dos animais?
Qual
seria o maior dos miseráveis, o desprovido de absolutamente tudo,
principalmente da motivação para sobreviver? Conheci, anos atrás,
em Barão Geraldo, uma pessoa que se estivesse viva seria séria
candidata a esse deprimente título. Nunca a vi sóbria uma vez que
fosse. Perambulava, trôpega e anestesiada, pelos bares do distrito a
implorar por uma dose de cachaça e algum salgadinho para matar a
fome. Nunca deixava de conseguir. Sempre aparecia alguém que, para
se livrar do seu assédio, lhe pagava a tal bebida, se julgando,
certamente, por isso, o supra-sumo da generosidade.
Vários
moradores davam-lhe restos de comida, como se alimentassem algum cão
vadio, e assim nosso personagem ia sobrevivendo. Dormia onde suas
pernas o levassem. Às vezes, em casas em construção, outras, na
soleira dos estabelecimentos comerciais, de onde era,
invariavelmente, enxotado, como animal pestilento, pelo dono, quando,
de manhã, abria as portas para o público. Cheirava mal à
distância. Pudera! Há tempos que não sabia o que era um banho.
Não
sei que fim esse indigente levou. O facto é que, lá um belo dia,
ninguém mais o viu. Certamente, morreu à míngua e foi sepultado,
anonimamente, em alguma cova rasa sem identificação ou teve o corpo
doado à Faculdade de Medicina, quem sabe. Soube, depois, que esse
farrapo humano havia sido famoso jogador de futebol (reservo-me o
direito de não o identificar, para preservar, pelo menos, sua
memória). Ninguém jamais soube explicar as razões de uma queda tão
grande e abrupta, para que chegasse a esse ponto.
Onde
estavam os seus parentes? Onde os dirigentes dos clubes em que jogou?
Onde os que se confessavam seus “amigos” e os tantos que se
diziam seus admiradores? Por que deixaram esse ser humano, “à
imagem e semelhança de Deus”, chegar a tal ponto de degradação?
Onde as autoridades que não o recolheram a uma instituição do
Estado, para lhe assegurar um mínimo de dignidade? Onde os líderes
religiosos?
Escrevo
estas linhas rilhando os dentes, decepcionado e amargurado com a
minha, com a nossa condição humana. E a trajectória desse
indigente, infelizmente, não é nenhuma excepção, mas a regra. O
homem é, pois, ou não é o mais feroz, o mais cruel e o mais
insensível dos animais?

Volto
à pergunta: qual seria o maior dos miseráveis? É o poeta
Rabindranath Tagore que responde: “O homem que precisa mendigar
amor é o mais mísero de todos os mendigos”. Ocorre que todos nós
praticamos este acto de mendicância. “Compramos” afecto e
raramente o conquistamos. Reflicta sobre essa afirmação e responda:
Tagore tem, ou não, razão? Não seríamos todos nós, incapazes de
nos doar, minimamente, ao próximo, sem que essa auto-doação
envolva algum interesse, os mais míseros dos mendigos? Desconfio que
sim!
Por Pedro J. Bondaczuk
Comentário:
Concordo
integralmente com este artigo de opinião. É forte, como deve ser
ainda assim não desperta consciências.
J.
Carlos