Hoje há cafeína. Expresso Curto, para mais tarde esquecer. Pedro Candeias é quem serve. Abre com Marcelo na ONU. Falar ou estar calado, naquele aéropago mundial, é o mesmo que não ter lá ido. Mas ali ele tem de falar, ou senão nem ia lá. Pois. Falam, falam, são presumíveis pessoas sábias, mas não dizem que aquelas sessões não passam de masturbações com resultados precoces e nulos que não dão gozo nem resultados positivos para a população mundial. Sábios no aerópago. Masturbações de alto-nível. Pois.Sei que é longo, mas peço-lhe que leia porque isto tem uma finalidade (e um fim, prometo) – e também porque deu algum trabalho.
Vamos lá:
Abrantes, Alvito, Barragem do Pocinho, Batalha, Beja, Belém, Berlim, Bobadela, Bragança, Bruxelas, Calheta, Cascais, Caxias, Chaves, Coimbra, Desertas, Espinho, Estoril, Évora, Freixo de Espada a Cinta, Fronteira, Funchal, Fundão, Ílhavo, Jamor, Lisboa, Lyon, Madrid, Mafra, Maputo, Marrocos, Matosinhos, Moura, Paço do Lumiar, Paris, Pernambuco, Portalegre, Portel, Porto, Porto Santo, Reguengos de Monsaraz, Roma, Santarém, Santa Marta de Penaguião, São Pedro do Sul, Serpa, Selvagens, Sintra, Torres Vedras, Vaticano, Vila Flor, Vila Franca de Xira, Vila Nova Da Rainha e Viseu.
De março para cá, Marcelo Rebelo de Sousa esteve nestes lugares todos (está no site da Presidência) e eu limitei-me a ordená-los alfabeticamente para confirmar o que se suspeitava: há um cartógrafo hiperativo e incansável a viver dentro de Marcelo. Não havia vivalma neste burgo que não conhecesse o Marcelo pré-PR, poucos serão os que não o reconhecerão agora. Um deles é o jovem jornalista francês à procura de respostas europeias paras as eleições norte-americanas.
– Já agora, qual o seu cargo?, perguntou ele
– Eu sou o Presidente da República de Portugal, respondeu Marcelo.
Foi em Nova Iorque – que juntarei à lista da próxima vez que se falar disto –, o vídeo está aqui, aconteceu a horas de se dirigir ao Mundo, e mostra que, além de dormir pouco, ler muito e nunca se perder no caminho, Marcelo tem fair play. Depois de Yoweri Kaguta Museveni, presidente do Uganda e antes de Enrique Peña Nieto, presidente do México, Marcelo Rebelo de Sousa agradeceu à ONU e tomou a palavra das 23h03 às 23h18.
Em quinze minutos, o PR português falou dos refugiados, da ajuda militar nacional à República Centro Africana e ao Mali; apelou ao fim do terrorismo, à prevenção e à solidariedade com os refugiados da Síria (o grande tema da 71ª Assembleia Geral); e lembrou os milhões de falantes do idioma de Camões, citando Vergílio Ferreira: “Da minha língua, vê-se o mar”
E disse, também, que o sucessor de Ban Ki Moon terá de reunir as caraterísticas “e os princípios de Mahatma Gandhi e de Nelson Mandela”, “construíndo pontes e sabendo ouvir, tendo a sabedoria e a capacidade de liderança inatas para tomar posições em que todos se revejam”. Omitiu as duas palavras que não podia dizer, porque não lhe ficava bem dizê-las: António Guterres.
As eleições para a liderança da ONU estão à porta, Guterres está à frente na corrida, e todas as oportunidades, para seduzir e amigar, são de agarrar. E os EUA, segundo Marcelo confessou ao tal repórter francês, são amigos – o que faz de Obama, com muita boa vontade nossa, um amigo.
Ora, o primeiro discurso de Marcelo coincidiu com o último de Obama, que raramente desilude quando lhe põem um púlpito e um público pela frente. Ontem, foi um desses casos e o mérito é dele, mas também de quem escreve o que ele diz: Cody Keenan. “Um mundo em que um por cento da economia controla os outros 99 por cento nunca será um mundo estável. Temos de seguir em frente e não para trás. A solução não pode ser, simplesmente, a rejeição de uma integração global. Há muitas nações, abençoadas pela geografia e pela riqueza, que poderiam estar a fazer mais”.
Dificilmente encontramos uma nação mais rica e abençoada por Deus, pela Mãe Natureza, pela sorte ou pelo acaso (escolha a opção que mais lhe convier) do que a brasileira. E dificilmente encontraremos noutro lugar um poço de tantas contradições, sendo “poço” a palavra chave, porque também é de petróleo que se fala.Lula da Silva vai ser julgado por corrupção no caso da Petrobras (e da construtora OAS), depois de o juiz Sérgio Moro ter aceitado a acusação contra o antigo presidente do Brasil – Lula não está só, mas acompanhado pela mulher, Marisa Letícia.
Quem não estará só nem acompanhado é José António Saraiva. Segundo o jornal i de hoje, o lançamento do livro “Eu e os Políticos”, da Gradiva, já não vai acontecer “por razões de segurança e para não acicatar os ânimos”. E quando acontecer, já não será apresentado por Pedro Passos Coelho, que alega que “as questões pessoais e privadas” retratadas na obra o fizeram recuar. “Metendo-me na pele de Pedro Passos Coelho, é de facto a atitude mais sensata”, diz Saraiva ao i. Há três dias, PPC garantira o seguinte: “Estarei a fazer a apresentação dessa obra. Não sou de voltar com a palavra atrás nem de dar o dito por não dito”.
Mariana Mortágua também diz que nada mais dirá sobre o imposto IMM (roubei o acrónimo ao Filipe Santos Costa), enquanto outros vão dizendo das suas. António Costa não escorrega na expressão “Ministra-sombra-das-Finanças”, assegura que, no OE, não haverá qualquer medida “de tributaçao do património que penalize o investimento ou afete os rendimentos das famílias”, e que é cedo para falar de assuntos que não estão fechados. Assunção Cristas acha que Costa fechou a boca ao Bloco de Esquerda e o Jornal de Negóciosacha o mesmo. Já hoje de manhã, em entrevista publicada à TSF, Pedro Filipe Soares, líder parlamentar dos bloquistas, veio revelar que nao, que Mortágua e o BE não apresentaram o tal imposto IMM à revelia do PS. Faz tudo parte de “uma estratégia mediática”. Afinal, garantiu Soares, havia um plano e não foi sem querer; mas de propósito.
Mesmo a propósito, a Rosa Pedroso Lima escreveu no Expresso Diário que nada disto é novo. “Mariana Mortágua não está a inventar a pólvora, mas o BE passou a carregar as armas”. A taxa suplementar de 0,5% de IMI para o património acima dos €500 mil, o fim dos benefícios fiscais e das isenções a Estado, Igrejas ou colégios particulares – enfim, todas estas medidas fazem parte da agenda bloquista há anos. A diferença, é que o BE, agora, está no poder.
Agora, os que podem mais – e os que podem menos. Neste segundo artigo da série de trabalhos sobre o estudo “Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: 2009-2014”, a Raquel Albuquerque diz-nos que “o rendimento dos 5% de portugueses mais ricos é 19 vezes maior que os dos 5% mais pobres”. E como estamos nós na Europa? Em média, houve um agravamento de 0,4 pontos na União Europeia – em Portugal, foi de 0,8 pontos.
Vamos às manchetes de hoje:
O Público traz uma fotografia de Marcelo na ONU a rasgar a primeira página, mas a notícia em destaque é sobre os biocombustíveis que farão “subir o preço do gasóleo e da gasolina em janeiro”. No Jornal de Notícias titula-se que “dezenas de câmaras vão reduzir o IMI” e que “um quarto dos fumadores começa aos 13 anos”. E no Diário de Notícias escreve-se que os “refugiados em Portugal [são] controlados por polícias e secretas”.
FRASES
“Os Skittles são doces, os refugiados são pessoas”. A Mars Inc. a repudiar mais uma idiotice do Clã Trump. É que o filho de Donald escrevera este tweet: “Se vos der uma taça de Skittles e vos disser que comendo três vocês morreria, comeriam na mesma? É o que se passa com os refugiados”.
“É uma vitória para todos nós, sobretudo para o futebol feminino. É uma vitória que o futebol feminino português merece. É com orgulho que chegámos a este patamar” Mónica Jorge, diretora para o futebol feminino da FPF, a propósito do triunfo da seleção nacional diante da Irlanda que apurou Portugal para o playoff de acesso ao Euro2017, a disputar na Holanda.
“Em suma, uma decisão de suspender fundos da União Europeia para Portugal teria um impacto direto e negativo sobre os cidadãos, as empresas e a economia como um todo” De: Mário Centeno, Ministro das Finanças. Para: Quem-manda-nisto-tudo.
“Estou muito triste, mas o mais importante é o bem-estar dos nossos filhos” Brad Pitt – e é escusado dizer que não sabe do que se fala aqui. Porque o assunto fez com que a CNN, a TIME ou o El País fossem por este caminho.
O QUE ANDO A LER
O que eu gostaria de andar a ler era isto, mas enquanto não me chega às mãos, percorro o ecrã com este longform escrito, fotografado, filmado e editado pelo João Santos Duarte. É a história de um homem que morreu, mas não está morto, e que continua a jogar beisebol como os miúdos do bairro em que nasceu. Chama-se o “Sonho Premonitório de um Defunto” e basta clicar aqui para entrar no imaginário dos venezuelanos onde ainda cabe Hugo Chávez. E também a pobreza, a fome, a injustiça e a desesperança. “Quando até já nem o teu cabelo está em segurança, o que é que isso diz de um país?”
Convido-o também a ler “A Vida Como Ela É”, de Nelson Rodrigues, um conjunto de textos que este escritor brasileiro foi escrevendo no jornal “Última Hora”. Lá vai encontrar ritmo, a ironia, o sarcasmo, o humor e o cinismo (e o génio) de Nelson, um contador de histórias curtas e simples que se auto-resume assim: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. O buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”.
