Chaimites voltam ao Terreiro do Paço para rodagem de filme sobre Salgueiro Maia

Chaimites voltam ao Terreiro do Paço para rodagem de filme sobre Salgueiro Maia

15/06/2020 0 Por Carlos Joaquim
Volvidos 46 anos sobre a Revolução, dois chaimites voltam ao Terreiro do Paço, sob o comando do ator Tomás Alves, no papel de Salgueiro Maia, para a rodagem do filme de Sérgio Graciano, que conta a vida do capitão de Abril.
As filmagens de “Salgueiro Maia — O Implicado” foram retomadas há cerca de duas semanas, depois de mais de dois meses paradas devido à pandemia covid-19, tendo sido gravada, no domingo, uma das cenas emblemáticas do 25 de Abril, quando os blindados, vindos de Santarém, montaram cerco aos ministérios, no Terreiro do Paço, em Lisboa.
A cena entre Tomás Alves e Paulo Calatré, interpretando o Brigadeiro Junqueira dos Reis, 2.º comandante da Região Militar de Lisboa, que se mantinha leal às forças da ditadura, foi gravada em vários ‘takes’, sob o olhar atento do realizador e de toda a produção do filme com um adereço comum a todos: máscaras.
Só mesmo durante a gravação da cena, os atores e figurantes foram dispensados do seu uso. Fora isso, impõem-se sempre as novas regras para a produção de cinema e audiovisual em Portugal, em tempo de covid-19.
Até o frente-a-frente de Salgueiro Maia e Junqueira dos Reis respeita as regras de distanciamento. O brigadeiro exige ao capitão de Abril, de lenço branco na mão, que se renda, e ordena também ao cabo, no topo do blindado, que dispare sobre Salgueiro Maia.
Este recusa, abandona o posto e segue em direção ao capitão. Exaltado, Junqueira dos Reis exige que os restantes soldados disparem, ordem que nenhum cumpre.
A sequência remete para um momento das primeiras horas da manhã de Abril, quando uma companhia de Cavalaria 7, comandada pelo brigadeiro Junqueira dos Reis, atinge a Ribeira das Naus. Dos relatos existentes, entre uma entrevista de Salgueiro Maia à historiadora Maria Manuela Cruzeiro, e testemunhos de militares, recolhidos pelo jornalista Adelino Gomes, resultam pontos comuns: Junqueira dos Reis dá ordem de disparo sobre as forças de Santarém, há um primeiro ato de recusa, pelo alferes Fernando Sottomayor, que é detido; uma segunda ordem de fogo também não é acatada pelo cabo Alves Costa.
“A cena é emblemática e [no filme] foi interpretada com alguma liberdade poética”, começou por dizer, à Lusa, o realizador Sérgio Graciano, adiantando que foi recriada um pouco da história, embora reconheça que “ninguém conta objetivamente aquilo que se passou, à exceção de Salgueiro Maia, talvez”.
Por isso, reconheceu que está interpretada à sua maneira, mostrando-se esperançoso que o público venha a gostar.
Sérgio Graciano confessou o “orgulho enorme” em poder retratar a vida “de um dos grande heróis da História de Portugal”, considerando, no entanto, que a homenagem já devia ter sido feita e “peca por tardia”.