O impressionante e inspirador testemunho de um médico e doente oncológico

O impressionante e inspirador testemunho de um médico e doente oncológico

15 de Fevereiro, 2020 0 Por Carlos Joaquim
Miguel Mota Carmo. “Dantes custava-me acordar. Agora acordo e fico contente”
Marta F. Reis 09/02/2020 13:03
Aos 63 anos, o cardiologista decidiu partilhar a experiência dramática que viveu há cinco anos, quando o agravar de um linfoma o deixou à porta da morte e mudou a sua forma de encarar a vida.
Aos 63 anos, Miguel Mota Carmo, cardiologista e professor agora retirado da Faculdade de Ciências Médicas da Nova, publica por estes dias a memória dos meses dramáticos que viveu internado no Hospital de S. José e no IPO de Lisboa há cinco anos, quando um linfoma folicular que parecia controlado assumiu uma forma mais grave e o deixou às portas da morte. A doença fê-lo mais calmo, mais grato, mais positivo e mais espiritual e é essa a experiência que partilha em Voando Sobre A Vida (Contraponto), escrito, já depois de renascer, na forma de diário, onde um médico se vê na condição vulnerável de doente e se apercebe de pequenas coisas que incomodam e de outras que alimentam a esperança e põe à prova um lado mais científico que até aí dominava a sua vida e profissão. A uma médium, Margot, agradece tê-lo feito crente e a luz que o levou a lutar. Acredita que é um milagre estar vivo, não só da Medicina.
É um homem e um médico muito diferente depois da batalha que descreve neste livro?
Sou. Tento aproveitar a vida o máximo possível. Pensamos que somos eternos, trabalho-casa, casa-trabalho. Sempre gostei de viajar e aproveitar a vida, mas era aquela luta constante, de manhã custava imenso acordar. Agora acordo e fico contente de estar acordado. E depois no trabalho era sempre a correr. Eu e a minha mulher Teresa somos os dois cardiologistas, criámos três filhas e tentámos sempre dar o melhor profissionalmente. E depois além do trabalho no hospital, no meu caso em Santa Marta, tínhamos a parte médica privada. A minha mulher fez a formação em Santa Marta, esteve quatro anos em Santarém e depois foi transferida para o Pulido Valente onde chegou a diretora de cardiologia. Em 2007, quando tive o diagnóstico de linfoma e fui fazer quimioterapia, largou tudo para me acompanhar nos tratamentos e mais tarde voltou só para a privada. Eu continuei no Santa Marta.
Escreve que antes de perceber que o cancro tinha voltado numa forma mais violenta, o processo que relata neste livro, se estava a preparar para uma semana cheia de trabalho. Como foi esse embate?
Não pensei no que me estava a acontecer. Estava numa sardinhada com amigos na final do Campeonato do Mundo de Futebol e de repente não consegui engolir. Pensei que tinha sido um espasmo do esófago, coisas de médico, mas nos dias seguintes não consegui comer. Na Faculdade tinha sido nomeado regente de uma unidade curricular, de introdução à prática clínica – para mim era o auge da carreira. Tinha de fazer uma proposta de currículo até ao final de julho, estava a bombar, não tinha tempo para estar doente.
O diagnóstico de cancro em 2007 não o tinha desacelerado?
Nada. Fiz a quimioterapia toda a trabalhar. Um indivíduo agarrar-se à doença é a pior coisa que pode haver, o trabalho até distrai. Tive agora outra recidiva do linfoma, no verão, comecei a fazer quimioterapia em agosto e nunca deixei de trabalhar. O que é que estou a fazer em casa? Se as quimios são bem toleradas, saio, estou com os doentes, faço alguma coisa.
Mas é diferente quando se ouve o diagnóstico de cancro pela primeira vez?
Da primeira vez foi uma pedrada. Pensei que não havia amanhã. Tinha 50 anos, e tinha um cancro que se diz que é um cancro dos velhotes, linfoma folicular, um linfoma indolente, os gânglios estão grandes mas, se não dão sintomas, não se faz nada. Comecei a comer como se não houvesse amanhã, era essa mentalidade. Engordei e cheguei aos 96 quilos e por fim o meu médico lá me ensinou a viver com a doença. Comecei a correr, emagreci. Depois os gânglios cresceram mais e aí fiz quimioterapia, mas superei sempre tudo bem.
Sentia-se um sortudo então até à situação que relata neste livro, quando os gânglios tinham formado uma barreira entre o esófago e o estômago.
Exatamente. Mas ainda hoje sou um sortudo. Mas sim, da outra vez a quimio foi como fazer qualquer outro tratamento. Da segunda vez foram seis meses arredado da sociedade. Estive um período em casa muito pequeno, dois internamentos curtos no IPO e o resto na Unidade de Urgência Médica (UUM) do S. José. Seis meses em que não podia comer, tinha um ostoma no pescoço com um saco. E quatro semanas em coma.