Macroscópio – Não, não são balanços do ano. São leituras para passar o ano

30/12/2017 0 Por Carlos Joaquim
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Macroscópio

Por José Manuel Fernandes, Publisher
Boa noite!

 

Vou fazer uma confissão de jornalista: um dos motivos, talvez o principal motivo, porque jornais, revistas e televisões estão cheios de “balanços do ano”, “figuras do ano”, “imagens do ano” e toda uma linhagem de produtos editoriais semelhantes é porque, entre o Natal e o Ano Novo costumam rarear as notícias. E as redacções estão também rarefeitas. Uma boa forma de preencher este vazio é, por isso, olhar para o ano que passou e escrever sobre ele. Por vezes de forma brilhante. Por vezes nem por isso. Escuso-me pois de vos propor uma selecção desse tipo de trabalhos e, em vez disso, variar um pouco sem variar muito – variar, porque falarei de variados assuntos; variar pouco, pois a ideia será propor algumas leituras (não muitas) mais demoradas, mas também mais interessantes, todas elas capazes de ajudar a preencher os três dias de descanso que temos pela frente.
 
Está bem de ver que, falando de leituras mais longas, textos para degustar com mais tempo, não podia deixar de começar por recordar alguns especiais do Observador deste mês de Dezembro, daqueles com que se aprende:
  • A última paixão de Fernando Pessoa não foi Ofélia é um texto surpreendente de Rita Cipriano sobre a revelação de quem era a mulher misteriosa a quem, no último ano de vida, Fernando Pessoa escreveu uma série de poemas.  Aparentemente “A rapariga inglesa, tão loura, tão jovem, tão boaQue queria casar comigo…/ Que pena eu não ter casado com ela…”, assim referida num poema do heterónimo Álvaro de Campos, seria Margaret Mary Moncrieff Anderson, mas se quiser saber como se chegou a essa conclusão é só mergulhar neste especial.
  • Sidónio, 100 anos depois do Presidente-Rei é um ensaio de Rui Ramos onde o historiados onde este nos conta como, há precisamente 100 anos, em Dezembro de 1917, Sidónio Pais subiu ao poder e mudou o regime, até ser assassinado um ano depois. Nele se discute o que foi o sidonismo e este que significou. A tese que defende é que “O sidonismo foi, enquanto durou, mais uma situação do que propriamente um regime. Não se fundou no bom funcionamento das instituições representativas, nem no respeito pela lei, mas num poder pessoal sustentado pelo oficiais que Sidónio colocou à frente do exército.”
  • Jerusalém: 3800 anos a criar sarilhos e Jerusalém: das três religiões à terceira Intifada são dois especiais que o Observador publicou em dois dias seguidos nos quais José Carlos Fernandes revisita uma cidade que foi atacada 52 vezes, sitiada 23 e arrasada por diferentes exércitos. Uma história apaixonante de um lugar central da história das religiões e, também, das civilizações. Indispensável se quiser compreender melhor o porquê e as implicações da recente decisão do Presidente Trump de autorizar a transferência da embaixada dos Estados Unidos em Israel de Tel Aviv para a Cidade Santa das três grandes religiões monoteístas.
 
Prossigo com outra sugestão da imprensa portuguesa, uma reportagem de investigação publicado no último Expresso. Trata de Escravos do rio, de Rqquel Moleiro, e aborda uma situação inquietante: “São mais de mil. Todos os dias apanham no Tejo toneladas de amêijoas japonesas, contaminadas mas que geram milhões. Não para eles. Tailandeses e romenos são controlados por redes que começam no estuário e terminam na Galiza. Pelo caminho há agressões, armas, furtos, falsificações, fraude fiscal, atentados à saúde pública, exploração laboral e suspeitas de tráfico humano”. (paywall)
 
Saio agora de Portugal e salto para um tema bem mais ligeiro. Agora já não estamos nas margens do Tejo, mas nas do Douro espanhol, não longe de Valladolid, nos campos onde o El Pais foi tentar desvendar Los secretos de Vega Sicilia. Não sei até que ponto os leitores estarão familiarizados com este nome, mas é o do mais prestigioso vinho tinto espanhol, também filho de vinhas que crescem nas margens do mesmo rio que, no lado português, é berço do mais renomado vinho tinto português, o Barca Velha. O Vega Sicilia é mais antigo e teve porventura uma vida mais atribulada, mas tudo isso se pode descobrir neste trabalho do qual retirei apenas uma passagem, um extrato de uma entrevista com o administrador da propriedade:

—¿Cuál es el secreto de un gran vino?

—Un gran viñedo. El vino se hace en la viña y no en la bodega. Y por eso me cargué (hace ya 30 años) la química y los herbicidas y los fertilizantes. Además, hemos hecho un gran trabajo de clasificación de los suelos y de estudio genético y selección de nuestro viñedo (que hemos dividido en 54 parcelas), que va a ser clave en los próximos 50 años. La identidad de un vino está en la viña, no en los polvos. Y luego hay que tener paciencia: nunca haces un gran vino si pretendes forrarte. 

(E como referi o nosso Barca Velha não posso deixar de recuperar um outro especial do Observador, este publicado em 2016, da autoria de Ana Cristina Marques: Barca Velha. Ou a história de como nascem os grandes vinhos. Havendo orçamento, que tal entrar o ano com uma prova comparada?)
 
Mas deixemo-nos de fantasias, ou passemos antes a outras fantasias, pois a leitura que se segue reproduz a conversa bem divertida entre dois especialistas britânicos em tecnologias e transportes. Trata-se de Driverless cars: fantasy or reality?, uma troca de impressões entre Christian Wolmar e Rory Sutherland organizada pela Spectator. Como é habitual naquela revista há sempre um lado mais iconoclasta, e por isso não posso deixar de citar esta consideração de Sutherland, até porque nela também se referem grandes vinhos: “If I were transport dictator, I’d just make transportation fabulous. We can do that. Our perception of time is highly elastic, and the quality of journey time is much more important than its duration. (…) If you ask me, the £6 billion spent on making the Eurostar journey faster had about an equivalent effect to the hundred million or so spent making St Pancras station glorious again. I once suggested skipping the speed increases and instead putting supermodels serving free Château Pétrus to passengers on the Eurostar. That way you could save £5 billion on track improvements: people would ask for the trains to be slowed down. Less spent on engineering technology and more spent on psychology — that could hugely improve transport at a relatively low cost. That’s my policy. I am, basically, a romanticist.”
 
Ora eu, que não sou propriamente um romântico, sou levado a concordar. Até porque nunca tive, até hoje, a oportunidade de provar Château Pétrus, um daqueles vinhos franceses de um liga à parte. Mas adiante, até porque juto que este devaneio não é seguramente consequência da leitura de How Smartphones Hijack Our Minds, um fascinante ensaio do Wall Street Journal (paywall) sobre como “Research suggests that as the brain grows dependent on phone technology, the intellect weakens”. Logo a abrir fiquei a saber que, como utilizador de um iPhone, devo manusear 80 vezes por dia o aparelho, o que dá umas 30 mil vezes por ano. Pois é, nem se imagina, mas parece que são os valores médios, pelo que “The evidence that our phones can get inside our heads so forcefully is unsettling. It suggests that our thoughts and feelings, far from being sequestered in our skulls, can be skewed by external forces we’re not even aware of.
 
E uma vez que, por esta via, regressei a um registo mais ensaístico, termino a minha lista de sugestões para este fim-de-semana de Ano Novo recuperando um texto de Henrique Raposo no Expresso já com alguns meses: Metamorfose da memória (ensaio sobre a Alemanha). Trata-se de um texto, escreve-se logo a abrir, “Onde se explica porque é que ler W. G. Sebald é encontrar a encarnação literária de uma certa mentalidade alemã e europeia que está historicamente situada entre o fim da II Guerra Mundial e o regresso da história que estamos a viver neste preciso momento.”
E por aqui me fico, despedindo-me com uma variante, pois hoje os meus melhores desejos vão para que todos os leitores possam ter um bom e feliz ano de 2018. Até para o ano, festejem bem, sem excessos mas com muita alegria. 

 

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