O poder e o carácter (Fenomenologia de um burocrata)

30 de Abril, 2016 0 Por Carlos Joaquim
Lenin gostava de repetir que o poder corrompe e o
poder absoluto corrompe absolutamente. Corrompe material e espiritualmente.
Emir Sader
A afirmação: “Quer conhecer uma pessoa?
Dá-lhe poder, para ver a força do seu 
carácter” vale para entender
comportamentos na esfera da política nacional, mas também em outros marcos
institucionais.
Gente que pregou sempre a socialização
do poder, as direcções colectivas, a construção de consensos mediante a discussão
democrática e a persuasão, criticou sempre a violência verbal, a ofensa, o
maltrato às pessoas – de repente vê um cargo de poder cair no seu colo, revela
falta de carácter, renega tudo o que aparentemente defendia, se encanta pelo
poder e se torna um déspota.
O poder lhes sobe à cabeça e lhes invade
a alma.
Todas as frustrações e os complexos de inferioridade acumulados por não
ter méritos para um protagonismo de primeiro plano, de repente irrompem sob a
forma da prepotência, da arbitrariedade, da concentração brutal do poder, de
mal trato das pessoas, do uso do poder das formas mais arbitrárias possíveis.
Tem gente que se humaniza ainda mais
quando assume funções públicas, aumenta sua modéstia, suas formas humanas de
relação com as pessoas. Tem outras em quem o poder bota pra fora o que de pior
estavam acumulando. Se transtornam, tornam-se monstros, que acreditam que o
poder é um porrete, de que fazem uso a torto e a direito, contra todos.
Não conseguem conviver com pessoas que
acreditam que lhes fazem sombra. Tem complexo de inferioridade, então acreditam
que os outros o desprezam, não o levam a sério, não lhe reconhecem os méritos
que acreditam ter.
Tem uma visão instrumental do poder,
tanto assim que se desesperam quando se defrontam com pessoas que tem seu poder
na moral, na legitimidade política, na capacidade intelectual – de que eles não
dispõem – que não se vergam diante de ameaças, diante do poder do decreto, da
arbitrariedade. Diante dessas pessoas, perdem o equilíbrio, se sentem pequenos,
impotentes, desprezados.
Não conseguem conviver com a diferença.
Diante de divergências, buscam fazer com que desemboquem na ruptura, valendo-se
do poder formal dos decretos, das punições, da exigência de retratações
formais. Não tem estrutura psicológica para conviver com as diferenças, para
buscar coesão entre diferentes. Logo descambam para a violência, verbal e dos decretos.
Usam os espaços institucionais que detêm
como se fossem propriedade sua, dispõem das pessoas, das coisas, dos recursos,
como se fossem património pessoal. Fazem do cargo que tem, uma propriedade
pessoal, desqualificando completamente o 
carácter publico que a instituição deveria ter.
Como sabem que tem um poder ocasional,
pequeno, vivem depressivos, buscam esconder-se através de falsas euforias, mas
que lhes tiram o sono, a calma.
Tratam mal  a todos a seu redor, fazem
deles submissos, em lugar de ajudá-los a desabrochar, como outros lhe
permitiram sair do anonimato e galgar posições.
Vivem cercados de subalternos,
cinzentos, temerosos. Todos acumulando rancor e ódio contra ele, sonhando todo
dia com a sua morte, a sua desaparição mágica e súbita. Sonham que ele
desapareça, tanto o rancor e a humilhação que acumulam e sofrem. Ninguém gosta
desse tipo de gente, o temem, o odeiam, o desprezam caladamente.
É uma gente medíocre, mas que tem uma
ânsia profunda do poder. Como é profundamente inseguro, precisa da adulação,
por isso vive e nomeia incondicionais para cercá-lo. De quem cobra palavras de
adulação a cada tanto. Como compensação do complexo de inferioridade que tem.
Alimentam o acesso ao poder durante 10,
20 anos. Quando chegam, se afogam com o poder, o transformam em poder absoluto.
Quando deviam se realizar, se frustram, ficam menores, deprimidos, precocemente
decadentes. O que deveria ser o ápice, é o fim.
Fazem o teatro de um suposto desapego ao
poder, de dedicação não sei quantas horas ao dia às tarefas mais duras – e
cinzentas -, mas se apegam ao poder como sua alma. Já não podem viver sem ele e
suas prebendas.
Quando vai terminando o tempo desse
poder, ficam desesperados, porque não conseguem mais viver sem esse poder, sem
se dar conta que esse poderzinho é uma porcaria, um nada. E porque todos fora
dali, que não dependem dele, lhe tem um imensa e generalizada rejeição, que é o
que o espera quando não possa mais se proteger com as prebendas do poderzinho
que tem hoje. Vão ser reduzidos às suas devidas proporções, de mediocridade e
anonimato.
Porque o poder forte é o poder legítimo,
fundado no convencimento, na ética, no reconhecimento livre dos outros, que ele
não conhece.
Porque esse tipo  de burocrata tem uma visão pré-gramsciana,
acha que o poder é a violência, a força, a prepotência. Que pode levá-lo pra
casa no bolso ou debaixo do braço.
Pobres diabos, devorados
irreversivelmente pela mediocridade, pelas mentiras com que tentam sobreviver –
mentem, mentem, mentem, desesperadamente -, em guerra contra os outros e em
guerra consigo mesmos.
Lenin gostava de repetir que “O poder
corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Corrompe material e
espiritualmente.
Esses burocratas, corrompidos pelo
poder, são discricionários, prepotentes, cobram dos outros, mas não permitem
que cobrem dele. Cobram economia alheia, contanto que ninguém cobre seus
desperdícios. Não agem com transparência, escondem seus passos e suas
intenções. Não amam, não sabem amar, nunca amaram.
Gostam de si, tentam sobreviver, mal e mal, sem amor.
Reduzem tudo ao administrativo, porque
não sabem pensar, tem terror a ter que se enfrentar a uma realidade que
tivessem que decifrar, a argumentos que desnudassem sua falta de razões, suas
arbitrariedades. Não sabem argumentar, não conseguem justificar as decisões
absurdas que tomam, então vivem no isolamento, e no pequeno círculo cinzento
dos que dependem dele. Fogem da discussão, da confrontação de argumentos, que é
o que mais temem. Tentam reduzir tudo a prazos, normas, estatutos, punições,
ameaças, promoções, expulsões. São burocratas perfeitos, idiotizados pelo  ativismo, que não podem parar, senão teriam
que pensar e isso é fatal para eles.
Eles não entendem onde se meteram,
deglutidos pela actividade meio – seu habitat, como burocratas que são, por
natureza – não compreendem o que fazem, até mesmo porque é incompreensível,
reduzidos às cascas formais de um conteúdo que lhes escapa, porque sua cabeça
obtusa não lhes permite captar o que os rodeia, que eles pretendem aprisionar
mediante decretos.
Se desumanizam totalmente pelo exercício
frio da administração, que  crêem  que é poder. São solitários, vivem
fechados, os amigos se distanciam, perdem a confiança neles primeiro, o
respeito depois.
Pensam que dominam tudo, com seus
cronogramas e convénios, mas não controlam nada. Tudo acontece a seu redor, sem
que eles saibam. Vivem num mundo vazio, que não podem parar, para não se dar
conta que é vazio. Pulam no abismo para seu fim.
Não conseguem pensar-se a si mesmo sem
esse poderzinho. Tentam perpetuar-se, pela inércia, porque fora desse lugar não
são nada.
Ali também não são nada, mas se enganam, se iludem, que são.
Apodrecem no exercício das funções burocráticas e ai morrem.
São personagens que terminam como o
canalha do Nelson Rodrigues: solitários, sem ninguém, agarrados ao único que
lhe resta: a caneta e escrivaninha.
Os burocratas morrem em vida, afogados
pela sua mediocridade. Passam pelos cargos sem pena, nem glória, esquecidos e
desprezados por todos.
Saem menores do que entraram. Se dão conta aí que já não
serão nada na vida.

Essa a vida e a morte dos burocratas. A
vida segue, feliz, sem eles.
por Emir Sader em 24/11/2013
Fonte:Carta Maior